"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

18. O Silêncio Primordial

Com certeza estava afetado pela beleza, grandiosidade e história do lugar. Estava onde pesquisadores acreditam ter encontrado os vestígios mais antigos da presença do homem na América. Isso há cerca de 30000 anos atrás. Sempre me interessei em imaginar o som da terra nos primórdios da pré-história, quando a presença do homem ainda estava em harmonia com as outras formas de vida, sem desequilíbrios. Naturalmente com a morte de representantes individuais, mas sem a ameaça a espécies inteiras. Pois bem. Após subir um desfiladeiro no Parque Nacional da Serra da Capivara, no sul do Piauí, eu pude ouvir este som. Lá de cima percebi o ruído do silêncio da pré-história! Na beira do penhasco, olhando o horizonte tive a certeza que era o mesmo silêncio primordial atravessando os milênios. Os cientistas buscam captar o som da explosão original do Big Bang. Não preciso deste. Naquele lugar, "ouvindo" aquilo, me senti contemporâneo dos primeiros habitantes da nossa terra. Isso já foi suficiente para me emocionar.



domingo, 9 de setembro de 2012

17. É possível alguma restauração na "restauração"? (I)

Para que possamos nos aproximar novamente da psicologia da patologia, apresento o termo patologizar como a habilidade autônoma da psique para criar doença, morbidade, desordem, anormalidade, e sofrimento em qualquer aspecto de seu comportamento e de experimentar e imaginar a vida através desta perspectiva deformada e aflita. 
 James Hillman, Re-vendo a Psicologia
O fato me tirou do longo silêncio que atribuí a este blog de reflexões, pois mexeu com minha imaginação e me fez desejar tecer uma longa cadeia de pensamentos a partir da perspectiva do patologizar proposta por Hillman. O feito fez sucesso mundial. Muitos adoraram e outros tantos detestaram. Trata-se da "restauração" de uma imagem de Cristo, intitulada Ecce Homo (Eis o Homem), que se encontra no santuário de Nuestra Señora de La Misericordia em Borja na Espanha. O afresco foi pintado por Elías Garcia Martínez, em agradecimento à Virgem da Misericórdia. O afresco retrata o rosto de Jesus com sua coroa de espinhos e expressão sofredora. Segundo as próprias autoridades locais, a obra não possui qualquer valor. Nada de novo foi acrescentado. Ali vemos as feições que tradicionalmente são atribuídas a Jesus. Desgastada pelo tempo, a pintura necessitava de um trabalho de restauração. É aqui que a história começa a ficar interessante.  




Com o intuito de restaurar a obra do pintor espanhol do século XIX, uma idosa de 81 anos chamada Cecilia Giménez, uma pintora amadora habitante da localidade, resolveu realizar o trabalho. A "restauração" foi concluída e o resultado tomou proporções mundiais. Segundo Manuel Gracia Rivas, presidente do Centro de Estudos Borjanos, o blog da instituição já recebeu milhares de acessos vindo de todos os lugares (http://noticias.universia.com.br/atualidade/noticia/2012/08/22/960673/idosa-destruiu-obra-arte-queria-terminar-trabalho-pintor-espanhol.html). Nunca a própria cidade recebeu tanta publicidade e o número de visitantes do santuário aumentou consideravelmente, todos interessados em ver pessoalmente o "novo" rosto de Cristo. O sucesso da pintura "original" diante de sua "releitura" é insignificante.     [edit]

quinta-feira, 21 de abril de 2011

16. Os dois lados da moeda

Por ironia, um dos mais irônicos escritores, teve sua principal obra ironicamente infantilizada. Isso aconteceu desde seu lançamento em 1726. Caiu no gosto da garotada que, infelizmente, não devem ter percebido o caráter eminentemente político do romance.

Outros grandes clássicos também tiveram sua força crítica reduzida. É o caso, por exemplo, de Herman Melville com seu estupendo Moby-Dick (1851). De um profundo tratado sobre a arrogância, o orgulho, a insensatez, a teimosia e a obsessão que podem dominar um ser humano ferido em sua auto-estima, o romance foi transformado em uma mera estória da fracassada perseguição de uma invencível baleia (alguns leitores vão reclamar comigo porque eu contei o final da estória). Tudo isso para agradar o gosto infanto-juvenil que supostamente não consegue navegar pelas mais de 700 páginas do romance. A triste estória do Capitão Ahab é a triste história de todos nós: somos potencialmente traidores dos princípios divinos (veja no Antigo Testamento em 1 Reis, 16: 29-34).

Voltando ao nosso autor irônico ou satírico, como preferem alguns. Trata-se de Jonathan Swift (1667-1745), o famoso escritor irlandês. O título original do romance é "Viagens para várias nações remotas do mundo, em quatro partes. Por Lemuel Gulliver, cirurgião e depois capitão de vários navios", ou seja, as Viagens de Gulliver. Como mencionei, logo após o lançamento a criançada se apoderou da estória, afinal de contas qual garoto não iria se deliciar com a cena onde o incêndio nos aposentos da Imperatriz, que ameaçava se espalhar por todo o palácio, foi apagado com uma bela, potente e certeira urinada do gigante Gulliver? Isto aconteceu na primeira viagem do nosso protagonista. Chegando exausto a uma praia, após um fatídico naufrágio, Gulliver se viu preso por inúmeros homens de tamanho diminuto comparado ao seu. Esta em Lilipute. Livre, Gulliver não só ajudava o Imperador em várias tarefas, como tinha a oportunidade de conhecer os hábitos daquele povo, sem deixar de apresentar os hábitos de sua adorável e justa terra natal, a Inglaterra. Viviam em guerra com o reino de Blefuscu, também formado por pessoas diminutas. A causa desta batalha era a forma como os dois povos partiam os ovos, se pela ponta mais fina ou se pela mais grossa. Gulliver chegou a tomar os navios de guerra de Blefuscu a pedido do Imperador de Lilipute. Seu tamanho gigantesco tornou esta tarefa fácil, mas Gulliver se recusou a destruir o reino inimigo como desejava o monarca. Este fato, aliado ao ódio da Imperatriz por causa do método empregado para apagar o incêndio, gerou uma certa desconfiança por parte de todos. Gulliver foi condenado a ter seus olhos furados sob acusação de traição, o que o faz abandonar o reino e retornar à Inglaterra.

A segunda viagem foi a Brobdingnag. Para seu espanto estava agora em uma terra de gigantes. Tudo era enorme. Gulliver não perde a chance de filosofar.

Lamentei a minha própria e néscia teimosia, tentando segunda viagem contra o conselho de todos os amigos e parentes. Nessa terrível agitação de espírito não pude menos de pensar em Lilipute, cujos habitantes me consideravam o maior dos prodígios que já tinham aparecido no mundo; onde eu era capaz de puxar com a mão uma esquadra imperial e realizar outras façanhas que serão postas para sempre em lembranças nas crônicas desse império; nas quais dificilmente crerá a posteridade, embora atestadas por milhões. Refleti na mortificação que seria para mim parecer tão insignificante neste país quanto haveria de parecer um liliputiano entre nós. Mas compreendi que este seria o menor dos meus infortúnios; pois, segundo se tem observado, sendo as criaturas humanas mais selvagens e cruéis à proporção do seu tamanho, que outra coisa poderia eu esperar senão ser um bocado na bôca do primeiro dêsses bárbaros enormes que me pegasse? Têm seguramente razão os filósofos quando afirmam que nada é grande nem pequeno senão em relação a outras coisas (Editora Abril, 1971, pág. 82).

Aqui a sátira revela toda sua dimensão política e social. Uma mesma pessoa pode se sentir, dependendo do contexto, poderosa ou insignificante. Pode devorar ou ser devorada. Gulliver ainda estabelece uma ligação entre poder e crueldade: quanto maior o primeiro, mais explícito é o segundo. Esta é a famosa lei do mais forte, ou seja, uma ausência de lei. A atitude ética, como Levinas a concebe, é justamente ser responsável pela fraqueza e fragilidade do outro. Se fizéssemos isso não haveria nem bullyings nem wellingtons.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

15. Espingarda

"Aquilo era para se pegar espingarda e caçar" (96). Esta frase é de Riobaldo, narrador-filósofo do romance Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa (Editora Nova Aguilar, 1995) Jagunço guerreiro andava pelos perigoso sertão das Gerais combatento o mal em várias manifestações: nos inimigos Hermógenes, nas elocubrações acerca da existência ou inexistência do próprio demo e na luta que travava contra o amor e o desejo que sentia por outro jagunço chamado Reinaldo. Até este sentimento, devido à sua estranheza no mundo que habitava, poderia ser obra do capeta. Só de imaginar sentia nojo, mas este não era forte o suficiente para impedir esta paixão. Se acontecesse, não teria força para repudiar.
Havia algo que antes levaria a se pegar a espingarda e caçar. O quê? E agora, o que fazer? Houve uma mudança. Não se pegaria mais em arma para se lidar com aquilo. Surgiu uma nova atitude, um novo posicionamento. Aquilo eram os pássaros. Antes, apenas objetos de mira para o grande Reinaldo Tatarana, matador de onça, de hermógenes e de pássaros. E agora? "Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação" (96). O que antes era para se ver e matar agora é para se ver é apreciar. Quem lhe ensinou isso foi o Reinaldo: "É formoso próprio", dizia. "
Riobaldo chegava a estranhar esta sensibilidade, "tudo num homem-d'armas, brabo bem jagunço — eu não entendia!". O fato, porém, é que aprendeu também a gostar. Se, no caso de Márkel foi a proximidade da morte que o levou a se desculpar com os pássaros por não lhes ter apreciado a beleza, aqui o motivo foi o amor que levou Riobaldo a compartilhar a sensibilidade de Reinaldo, na verdade Diadorim, na verdade uma mulher. "E, aí, desde aquela hora, conheci que, o Reinaldo, qualquer coisa que ele falasse, para mim virava sete vezes" (96). Salve o amor!.
De todos os pássaros o favorito era o manuelzinho-da-crôa (batuíra-de-coleira, maçarico). Por que? Andava sempre em casal, catando alimentos de um lado para o outro. "Machozinho e fêmea — às vezes davam beijos de biquinquim — a galinholagem deles" (96). Quer imagem mais eloquente para o sonho amoroso?

terça-feira, 19 de abril de 2011

14. Somos monstros, eu mais do que todos (2)

Este título baseia-se na famosa frase encontrada no romance Os Irmãos Karamázov de Dostoiévski onde lemos: "somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros" (Editora 34, p. 396). Embora este pensamento seja repetido ao longo do romance por diferentes personagens, este trecho que estou citando foi pronunciado pela personagem Márkel que nos é apresentada em três brilhantes e irônicas páginas.
Márkel era irmão do hieromonge Zossima. Filhos de pai nobre, mas de condição financeira modesta, perderam o pai quando Zossima tinha dois anos e Márkel dez. Este tinha cabeça quente, mas era bondoso. Muito calado, em casa e no colégio, morreu aos dezessete anos na época da quaresma. Não queria jejuar, debochava das práticas religiosas dizendo que era tudo maluquice e que não existia Deus nenhum. Estas frases deixavam sua mãe e os criados horrorizados e entristecidos. Estes últimos eram em número de quatro e foram comprados por um conhecido. Zossima se lembra que sua mãe vendera uma cozinheira velha e coxa e contratado os serviços de uma cozinheira livre (cuja eficiência no trabalho talvez fosse maior, observação minha).
Márkel adoeceu logo no início da quaresma. O médico constatou a gravidade da enfermidade e decretou seu falecimento para muito em breve. Ao perceber que estava morrendo sofreu uma radical transformação. Passou a jejuar. À princípio para alegrar a própria mãe. Ela ficou ao mesmo tempo alegre e preocupada, pois pensou: "quer dizer que o fim dele está próximo, se lhe vem uma mudança tão repentina" (395). Mesmo doente, porém, seu aspecto era de extrema alegria e felicidade. Agora permitia acender a lamparina diante do ícone e dirigia palavras carinhosas para a aia. Todos choravam numa mistura de estranheza e emoção.
Aos criados ele dizia: "meus queridos, meus caros, por que me servem, mereço que me sirvam?" e arrematava falando que "todos devem servir uns aos outros". Sua mãe balançava a cabeça dizendo que estes pensamentos eram por causa da doença. Reconhecendo que é impossível viver sem senhores e criados pede que possa ser criado dos criados. Neste momento é que o famoso dito é inserido: "cada um de nós é culpado por tudo perante todos, e eu mais que todos" (396). Falava isso usando palavras amáveis e inesperadas. "Meus queridos, por que brigamos, por que nos vangloriamos uns perante os outros, porque guardamos rancor uns dos outros? Vamos direto para o jardim e passeemos e brinquemos, amando e elogiando uns aos outros, e beijando, e bendizendo nossa vida". O diagnóstico do médico ao ouvir tudo isso é certeiro: está para morrer, "está passando da doença para a loucura".
O que pensar de tudo isso? Está mudança era apenas o produto do desespero de um rapaz diante da angústia da morte, talvez enlouquecido, como julgavam sua mãe e o médico; um arrependimento vazio motivado pelo medo da punição (vai que estas histórias de Deus, Diabo, Céu e Inferno sejam verdadeiras!); ou uma transformação real que surge após uma experiência emocionalmente relevante? Dostoiévski não nos dá nenhuma indicação. Mas coisas relevantes foram faladas. Devemos ouvi-las ou desqualificá-las como o produto de uma mente doente e enlouquecida diante de uma situação catastrófica? E os pronunciamentos de um louco? Devem ser todos desprezados e desvalorizados? De qualquer maneira Márkel nos pede coisas dificílimas: assumir nossa culpa, deixar de nos vangloriar, amar e elogiar os outros, pedir perdão até aos pássaros por não ter-lhes observado a beleza. Palavras de um louco ou palavras que só puderam ser expressas através da loucura? É mais seguro não ouvi-las.
Os Irmãos Karamázov é um dos romances fundamentais da história da literatura universal. Em suas quase mil páginas Dostoiévski faz desfilar perante nossos olhos quase toda gama de baixezas, veleidades, maldades, crueldades, mesquinharias, etc., que tornam todos os seres humanos desprezíveis e repugnantes. "De fato, às vezes se fala da crueldade "bestial" do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel" (329).
Dos três irmãos, filhos de mães diferentes mas de um mesmo pai desprezível, um, Aliócha, foi escolhido por Dostoiévski para ser o herói da história, pois buscava o tempo todo reparar os erros cometidos por sua família. Os outros dois, Ivan e Dmitri, ao contrário, eram protagonistas de algumas das piores ações que pessoas mais ou menos corretas podem executar. Não são bandidos, são como todos nós, mas possuem uma virtude: sabem que são desprezíveis e reconhecem a maldade que habita em nossos corações. "Acho que o diabo não existe e, portanto, o homem o criou, então o criou à sua imagem e semelhança" (330). A leitura de Dostoiévski é essencial em nosso tempo de superficialidades virtuais. Emmanuel Levinas, um dos grandes pensadores da ética, mesmo reconhecendo a condição extrema desta culpa pelo outro, a considera fundamental para o exercício de uma responsabilidade pelo outro.
No caso da chacina do Realengo considero o reconhecimento desta culpa fundamental para uma real transformação de todos nós, onde cada um buscará rever suas atitudes perante o outro. Todos os nossos valores devem ser repensados. O bullying (de bully = valentão), reconhecido como um dos grandes males da sociedade, ameaça a integridade física e psicológica de praticamente todos os alunos em várias partes do mundo. Gera traumas psíquicos e graves alterações da personalidade, mas a fonte desta prática somos todos nós. No mesmo dia o jornal Bom-dia Brasil, comentou os assassinatos cometidos por Wellington, a prática de bullying e, no final da edição, uma reportagem sobre o aumento significativo da procura de cirurgia para redução de estômago em adolescentes. A causa desta procura é a agressão verbal sofrida por elas devido ao peso aumentado. Porém, o canal de televisão que fez esta reportagem é o mesmo que exibe Zorra Total, onde rir de gordos é um dos quadros frequentes. Além, é claro, da ditadura da beleza que nos assola, onde um determinado tipo físico é elevado à categoria de padrão em detrimento de uma maior diversidade.
Portanto, além de uma reforma da escola de Realengo, novas pinturas e novas funções para as salas fatídicas, deveríamos promover diálogos onde as diferenças deveriam ser pensadas e as conclusões compartilhadas. Wellington tinha uma causa, da mesma forma que os "terroristas islâmicos" tem as deles (quer concordemos com isso ou não). Que tal ouvir o que eles tem a dizer? Talvez isso impeça toda essa matança que se espalha feito uma epidemia descontrolada por todo o mundo.

"A mim pertencem a vingança e a represália..."
Deuteronomio 32,35

sábado, 16 de abril de 2011

13. Contra Golpe

Counter Strike é apenas um dos inúmeros e famosíssimos jogos de computador cuja temática é unicamente eliminar o outro. Segundo seus fãs é pura diversão, visto que as mortes são exclusivamente virtuais.

Esta mão é você eliminando a escória da humanidade.

O perigo aparece de vários lados. Menos do nosso interior.

O Rio de Janeiro foi homenageado na diversão!

Os argumentos dos defensores do jogo são inúmeros. Cheguei a ler que o jogo aumenta o sentimento de companheirismo, visto que vários jogadores podem se unir para derrotar as forças do mal.

Ajudando companheiros maltratados pelos bandidos.





Talvez a conscientização de que você tem direito à escolha também seja um argumento a ser considerado.


O treinamento dos "guerreiros" exige provas duríssimas como, por exemplo, ser capaz de manter a concentração mesmo quando o inimigo lança seres diabólicos para te seduzir e desviar sua atenção.


O treinamento exige ser capaz de abrir mão de prazeres imediatos e "não cair em tentação".

Carl Gustav Jung, em Símbolos de Transformação, ao comentar sobre a importância da energia psíquica não ser desviada para tarefas alheias àquela que está sendo executada, cita um certo ritual indígena onde "havia um costume para os guerreiros, antes de irem para o campo de batalha, girar em torno de uma linda jovem nua que se encontrava no centro do círculo. quem quer que tivesse uma ereção era desqualificado como incapacitado para as operações militares" (par. 220). Não sei se este costume realmente existe ou existiu (Jung não citou a fonte da informação). De qualquer maneira o comentário é adequado ao nosso tema, mostrando que os guerreiros das fotos estão direcionando sua libido para a tarefa empreendida e não desviando-a para o prazer sexual. Detalhe: a luta é virtual, mas as mulheres são reais.

Counter Strike (e jogos afins) não formam gerações de criminosos e bandidos, mas achar que isto não contribui em nada para a formação de valores da personalidade é pensar de forma muito ingênua. É pura violência destiduida de qualquer sentido mais profundo. Não se pensa, se mata!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

12. E os animais?

Um trecho da carta de Wellington é, aparentemente, paradoxal e sem sentido. Prova de seu estado de loucura. Uma vez mais, uma análise mais profunda revelará outras facetas da situação. Vamos ao trecho.
"Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado à uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se sustentar, os animais não podem pedir comida ou trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, pois cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar este imóvel para o meu nome e todos sabem disso, se não cumprirem o meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não têm nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi”.
Como um assassino frio e calculista, com a nítida e premeditada intenção de matar o maior número possível de crianças e adolescentes, pode pensar no bem-estar de animais abandonados que ele nem conhece? Isso me faz lembrar de algumas coisas. A primeira é o Rock da Cachorra de Eduardo Duzek, que de maneira jocosa e irônica, na melhor tradição de Jonathan Swift, autor de As Viagens de Gulliver (não confundir com a idiotice hollywoodiana de mesmo nome que foi exibida recentemente nos cinemas), chama a atenção para problemas muito sérios. Diz a letra:

Troque seu cachorro
Por uma criança pobre
(Baptuba! Uap Baptuba!
Sem parente, sem carinho
Sem rango, sem cobre
(Baptuba! Uap Baptuba!)
Deixe na história de sua vida
Uma notícia nobre...
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
Por uma criança pobre...
Tem muita gente por aí
Que tá querendo levar
Uma vida de cão
Eu conheço um garotinho
Que queria ter nascido
Pastor-alemão
Esse é o rock despedida
Prá minha cachorrinha
Chamada "sua-mãe"...
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
Esse é o rock despedida
Prá cachorra "Sua-mãe"...
Seja mais humano
Seja menos canino
Dê guarita pro cachorro
Mas também dê pro menino
Se não um dia desse você
Vai amanhecer latindo
Uau! Uau! Uau!...

Com este rock Duzek está nos lembrando que Wellington não está sozinho em sua capacidade de se compadecer dos animais mais do que pelos seres humanos. Muita gente de bem faz o mesmo. Em seu caso, fragilizado psicologicamente, e, como indicam seus escritos, humilhado e desprezado pelos colegas, sua repulsa pelos humanos tem explicação. Nossa experiência com animais é diferente. Os cachorros sacodem o rabo para ricos e pobres, belos e feios, sábios e ignorantes. Não se importam com a aparência exterior. Os mais agressivos são imitadores de seus donos. O encantador de cães, série que pode ser vista no canal Animal Planet, tem um pit-bull que é muitíssimo mais manso do que eu. Isto conduz a minha segunda lembrança, diz respeito a um conto moral pertencente à tradição muçulmana (agradeço a Philip Bandeira de Melo ter-me apresentado, em eras passadas, mas ainda nesta encarnação, este belo livro). Encontra-se na compilação feita por Idries Shah intitulada Histórias dos Dervixes, religiosos da tradição Sufista que fazem votos de pobreza e praticam boas ações. A estória em questão chama-se "O cachorro, o bordão e o Sufi" que vou reproduzi-lo aqui (acho que o livro está esgotado; vale a pena procurá-lo em sebos; foi publicado pela Editora Nova Fronteira).
"Um homem vestido como um sufi caminhava certo dia pela estrada quando viu um cachorro à beira do caminho, ao qual golpeou duramente com seu bordão. O cachorro, ganindo de dor, correu à procura do grande sábio Abu-Said. Arrojando-se a seus pés e mostrando sua pata ferida, clamou por justiça conta o sufi que o maltratara tão cruelmente.
O sábio chamou a vítima e o acusado. Fitando o sufi, ele disse:
— Ó insensato! Como é possível tratar assim um pobre animal? Veja bem o que lhe fez!
— A culpa não me cabe, e sim ao cão. Não lhe bati por mero capricho, mas sim por ter sujado meu manto.
Mas o cachorro persistia em sua queixa.
Então o venerável sábio disse ao cachorro:
— Em vez de aguardar a Recompensa Final, permita que lhe dê uma compensação pela sua dor.
Ao que o cachorro retrucou:
— Grande e sábia criatura, quando vi este homem ataviado como um sufi, pude deduzir que não me faria mal algum. Em troca, se eu tivesse visto um homem vestido de maneira comum, naturalmente que me afastaria dele. Meu verdadeiro erro foi supor que a aparência exterior de um homem devotado à verdade representava segurança. Se deseja que ele seja castigado, despoje-o da vestimenta dos Eleitos. Retire-lhe os paramentos dos servos da Virtude...
O cachorro estava num certo Degrau do Caminho para a verdade. É um erro crer que um homem deve ser melhor do que aparenta."
O cachorro aprendeu, na base do porrete, a não confundir exterior com interior, embora a gente faça isso o tempo todo. Outros cachorros, num Degrau mais elevado do Caminho para a Verdade, não cometem este erro. Agora minha última lembrança.

Tive a sorte, em meu processo de formação, de ter trabalhado e aprendido com a Drª Nise da Silveira, a famosa psiquiatra que buscou humanizar o tratamento dos doentes mentais. Seu principal método (a ser ensinado, pois perdemos a capacidade de fazer isso espontaneamente) era chamado de "afeto catalisador", ou seja, dar carinho e atenção para ajudar os pacientes a saírem de sua "célula de sobrevivência". O medo do outro é muito forte, por isso se isolam e criam uma realidade substituta. O afeto catalisa o potencial de todos de sair deste abrigo interno e se voltar para o mundo externo da realidade e dos relacionamentos. A função do terapeuta é facilitar esta passagem. A Drª Nise, porém, vai mais longe. Vamos às suas palavras, tão sábias quanto aquelas do mestre Sufi.
"Excelentes catalisadores são os co-terapeutas não humanos.

Desde a adoção da pequena cadela Caralâmpia (1955) por um doente que frequentava uma de nossas oficinas, verifiquei as vantagens da presença de animais no hospital psiquiátrico. Sobretudo o cão reúne qualidades que o fazem muito apto a tornar-se um ponto de referência estável no mundo externo. Nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto sem nada pedir em troca, traz calor e alegria ao frio ambiente hospitalar. Os gatos têm um modo de amar diferente. Discretos, esquivos, talvez sejam muito afins com os esquizofrênicos na sua maneira peculiar de querer bem" (Nise da Silveira, Imagens do Inconsciente, Editorial Alhambra, pág. 81).
Com dificuldades de viver sua faceta humana, cometendo gestos desumanos, Wellington certamente se identificou com os seres não-humanos, projetando suas partes abandonadas e fragmentadas nos vira-latas da vida. Apesar de toda a revolta gerada pelos seus atos, sua casa foi apedrejada e pichada, acredito que seu desejo merece ser realizado. Que o lugar onde viveu seja um lar de redenção e abrigo para tudo aquilo que foi e é desprezado.

11. Somos monstros, eu mais do que todos.

Inegavelmente o último evento perturbador que acompanhamos em todos os noticiários cria muita revolta. Refletir sobre ele é nossa obrigação, mas devemos reconhecer igualmente onde cada um de nós contribuiu para esta tragédia e interromper um ímpeto de caça às bruxas que se espalha em todas as direções. Até o famoso fogo purificador, utilizado com frequência nas punições da inquisição, está sendo convocado: estão ameaçando incendiar a casa do assim chamado Monstro de Realengo, o Monstro da Desordem (um dos significados de realengo). Fica fácil constatar que uma retórica religiosa está se insinuando em toda está discussão, tanto por parte das "vítimas" quanto da parte do "culpado". Obviamente outras retóricas estão presentes. Quero, aqui, acrescentar um "s" multiplicador na última palavra que eu cautelosamente coloquei entre aspas. Não há somente um culpado. Em primeiro lugar, foram só (até agora) doze mortos. Não escrevo isso a partir da frieza estatística dos números. Escrevo isso me compadecendo da dor dos que tiveram seus filhos mortos neste evento. Tenho uma filha e só de pensar que poderia (e pode) ter acontecido com ela me causa calafrios. Mas a quantidade de mortes que nosso estilo de sociedade engendra no dia-a-dia é muitíssimo maior. Sem dúvida as circunstâncias nos fazem classificar o evento como traumático. Aqui está um dos problemas que eu quero levantar. Parece que as outras formas que a morte escolhe para nos atingir não estão nos traumatizando mais. Já fazem parte do "mundo é assim!". Estão, igualmente, falando muito dos transtornos mentais. O número de pessoas mortas por "doentes mentais", clinicamente identificados e rotulados, ao longo de toda a história da humanidade, é ínfimo comparado aos que perderam a vida nas mãos de indivíduos considerados normais. A não ser que alargássemos de tal maneira o conceito de loucura que estaríamos refundando a famosa Casa Verde do não menos famoso Dr. Simão Bacamarte, alienista criado por Machado de Assis. Neste caso qualquer gesto considerado diferente seria classificado como produto da loucura. Este massacre ou esta chacina de Realengo é, reconheço, diferente para nossos padrões. Isto é coisa de americano. Estamos acostumados a outros massacres e outras chacinas que ouvimos jantando na voz do locutor da vez do Jornal Nacional e rapidamente substituídas pelos gols da rodada. Como você vai comprar as coisas anunciadas se ficar triste? Somos ou não somos monstros? Aliás, uma correção. Foram treze os mortos. Wellington também faleceu. Voltando. Somos ou não somos monstros? Praticamos várias formas de bullying. Algumas tão inocentes que nem percebemos seu potencial agressivo e ofensivo. Rimos de pessoas feias, esquisitas, gordas, burras. Tudo isso na maioria dos programas de humor da nossa televisão. Os negros foram retirados deste grupo, agora dá cadeia, mas todos os outros acima mencionados, com o acréscimo dos homossexuais, são vítimas do nosso riso. Condenamos as agressões cometidas contra os homossexuais em São Paulo, mas rimos de todos eles. Eles nos divertem. São alegres! Cultivamos padrões rígidos de beleza ditatorialmente impostos sobre todos, com seus produtos mágicos dizendo que o que alguns são não deveriam ser. Se são, azar, te vira. "Tá com pena? Leva, é tua!", já dizia um velho bordão humorístico. Alguns não tiveram a sorte ou o dinheiro (que muitas vezes torna isto tudo sem importância) de nascer belos, normais, ricos, sarados, inteligentes (e brancos, acrescentaria um membro do nosso ilustre corpo político). Pelos fragmentos de sua história, entreouvidos aqui e acolá, nossa vítima-ativa, Wellington, seria um desses azarados. Rejeitado pelas garotas tomou, talvez, um caminho estranho. Poderia ter atravessado outros. Ter assumido sua feiúra e buscado alguém que visse nele outras expressões de beleza. Ter assumido sua feiúra e se isolado, por exemplo. Um caminho percorrido por muitos, inclusive pelo ilustre Fernando Pessoa, que se achava tão feio que chegou a duvidar se seria capaz ou mesmo merecedor de ser poeta. Poderia, também, ter escolhido um caminho explicitamente religioso, onde a pureza sexual, tema de sua carta de despedida, é recompensada com beatitudes celestiais. Ou mesmo, re-introduzindo o assunto loucura, seguido os conselhos de marcianos a abandonar o desejo pelas terráqueas em troca de sua re-encarnação em Júpiter, planeta com uma vida muito superior a da Terra (não duvido!). Prova que os delírios, mesmo os mais loucos, não conduz necessariamente uma pessoa ao crime. Wellington infelizmente não escolheu nenhuma destas opções. Identificando-se com outros desprezados famosos, percorreu a avenida da vingança. Modelos são facilmente encontrados nos meios de comunicação. Os primeiros a serem lembrados são os jovens que mataram colegas em várias escolas americanas. Disseram também que Wellington ficara impressionado com os ataques às Torres Gêmeas. Quem não ficou? Este fato foi apressadamente interpretado como se ele fosse um admirador dos grupos islâmicos fundamentalistas, que recebem a culpa de todas as calamidades políticas que assolam nosso mundo (como desconhecemos a história que não nos interessa!). Alá seja louvado! Graças a Deus em sua carta Wellington mencionou Jesus! De caráter individual ou político, com motivação religiosa delirante ou não, estamos diante de manifestações de pessoas (ou povos) oprimidos e que utilizam-se das armas oferecidas pelos opressores. A Folha de São Paulo de ontem (domingo, dia 10 de abril de 2011) destaca a seguinte notícia: "Polícia prende dupla que vendeu revolver a atirador e tenta traçar caminho da arma". A dúvida está no trajeto que levou o 32 das mãos de seu comprador original e legítimo, pois registrou a arma oficialmente. Mas ela foi roubada por alguém que passou a não sei quantos outros "alguéns" e acabou chegando num tal de Robson, que não se sabe se está ainda vivo ou morto, que vendeu a arma para o tal monstro, intermediada por um chaveiro e um vigia desempregado. Na tentativa de ajudar a polícia, reconhecendo meu total despreparo nessas questões, a elucidar este hiato (que leva do comprador oficial ao Robson), devo expressar minha opinião que tudo isso é a instituição de um bode-expiatório. Estamos diante, novamente, de uma retórica religiosa, desta vez bem antiga. Não importa de quem veio a arma. Se não viesse de um viria de outro, pois não deve ser difícil comprar uma arma. A questão principal é sobre seu papel em nossa sociedade. Por que elas são fabricadas e por que elas são compradas? Por que nos armamos? Que "r" é esse que se entremeou numa palavra que seria de grande utilidade para o bem da humanidade? E os carregadores? Talvez a maior invenção depois da invenção da própria arma. Seu sugestivo nome de "speedloader" já denuncia sua função: carregar as seis balas do tambor da arma de uma só vez. Quem foi que o inventou? Um bandido ou louco sanguinário? Um fanático religioso querendo purificar a Terra dos inimigos da fé? Que nada. Foi um inventor estudioso e habilidoso formado em alguma grande universidade. Tem família, paga seus impostos e gosta de levar seus filhos à Disneylândia. Exemplos de usos destes armamentos não precisam vir nem de loucos nem de fundamentalismos de qualquer espécie. Diariamente elas se mostram nos entretenimentos da vida cotidiana. Quase uma extensão da nossa mão. Tudo é resolvido através da pura e simples eliminação do outro. Desde os filmes de bang-bang, onde uma desavença com troca de tiros é algo tão comum quanto o cocô que os cavalos de mocinhos e bandidos espalham, até a tsunami de filmes e séries policiais que nos inundam, a arma empunhada é presença obrigatória. É tão divertido e óbvio que inventaram jogos de computador, vídeo-games, onde eliminamos inimigos ao bel-prazer. Ganhamos pontos com isso. Onde Wellington aprendeu a atirar? Não sei se em outros lugares, mas o counter-strike está aí para suprir esta lacuna. Joguinho de diversão. Só não é mais realista que matar "ao vivo" (me desculpem pelo trocadilho). Passar de um para outro é um pulo. Este e outros jogos semelhantes que fazem parte da indústria do entretenimento são um sucesso planetário. Existem até campeonatos mundiais para ver quem mata mais 'inimigos'. Tentativas de proibi-lo foram feitas em 2008. Em fevereiro do mesmo ano houve, inclusive, uma pequena manifestação em São Paulo contra a proibição. No portal G1 ainda podemos ler a opinião de alguns defensores do jogo. Nas palavras de Sérgio Amadeu, sociólogo e professor de comunicação: “Essa decisão é muito perigosa porque é baseada no preconceito. Não existe nenhuma relação entre games e violência. Essa decisão deve motivar o protesto não só dos jogadores de videogame, mas de todos que defendem a liberdade de expressão no país”. Acrescenta que os locais onde se concentram mais jogadores possuem baixos índices de violência. Não sei da veracidade desta afirmação, mas estudos deveriam ser realizados sobre os efeitos destes jogos na construção da visão de mundo de seus aficionados. A proibição de sua venda foi suspensa. Realmente ela era ridícula, pois o jogo poderia ser baixado ou jogado on line. Nem estou afirmando que o jogo cria ou criará hordas de jovens violentos. Graças a Deus (Alá, Jesus, Javé, Buda, Tupã, Oxalá, Krishna, etc.) isso não acontece. O que fica claro é a cultura de extrema violência que legamos aos nossos filhos, onde matar o outro, mesmo virtualmente, é o grande objetivo. Neste caldeirão repleto de ódio um ingrediente a mais ou a menos pode gerar outros Wellingtons. Aprendemos a debochar dos outros, não a respeitá-los. Na minha opinião, o próprio ensino contribui para isso. Concordo inteiramente com Paulo Freire quando ele critica o ensino cumulativo. As crianças e adolescentes saem cheios de informações que nada contribuem para a formação de seu caráter, pois muitas vezes são estudos tecnológicos que passam muito longe de sua realidade. Minha implicância principal é com a profundidade com que as matérias científicas (física e química) e matemática são ensinadas. Qual é o objetivo de se ensinar logaritmo aos adolescentes? Nenhum. Só encher a cabeça deles de preocupações e fazê-los perder tempo precioso que poderia ser utilizado em discussões sobre a vida em sociedade, em conhecer as diferentes culturas, em aprender a respeitar as diferentes religiões, em aceitar a multiplicidade de escolhas que temos à nossa disposição. O que vocês acham, professores, que na onda desta comoção, todos se debruçassem sobre o quadro Guernica de Picasso onde está retratado os efeitos da intolerância. Quanto ao logaritmo, deixem para a faculdade daqueles que querem ser engenheiros. A intolerância é nosso urgente tema de estudos.


Acima a imagem de Guernica de Picasso. Sugiro também a comparação com a Guernica de Quino, cartunista argentino, mais conhecido como o criador da Mafalda (insisto, mais uma vez, nada de logaritmo).

sábado, 26 de março de 2011

10. Contadores de H(e)stórias

O tema ainda é a questão da beleza. Para ser mais preciso, do seu oposto, a feiúra. O objetivo também é diferente. Dessa vez, gerar risos.

Cidade de Crato, no Ceará. Sou apresentado ao dono do hotel que conversava com uma mulher e outro homem, magro e baixo. O proprietário era também magro, só que alto. O baixo trabalhava em uma rádio da cidade e era um grande contador de casos. Foi instigado pelo dono do hotel a narrar algumas de suas h(e)stórias. Ele certamente conhecia todas, pois era ele quem invocava o repertório do contador. Mesmo já conhecidas, não havendo mais nenhum elemento de surpresa, ele visivelmente se deliciava com as narrativas. O prazer estava em ouvi-las, incontáveis vezes. O radialista então conta. Voz bonita chegando aos ouvidos de muitas mulheres, uma delas inevitavelmente se apaixonou. Telefonemas insistentes no intuito de marcar um encontro. Finalmente acordaram uma data. Surgiu então, na mulher, um temor que foi logo compartilhado com o dono da bela voz. Tenho medo que você me ache muito feia!, exclamou a mulher. Ele lhe respondeu: "isso não tem problema; venha aqui na rádio e vamos ver quem vai sair correndo primeiro". O dono do hotel se arreganhava de rir (mais uma vez).

Que beleza são os contadores e cantadores de h(e)stórias. É uma arte. Não é para ser vista, tocada, mas para ser ouvida. A narrativa e as palavras, ou melhor, as palavras da narrativa é que importa. Quem precisar de algo mais imagine. Será que desaprendemos a ouvir? Até mesmo a música é agora vista. Detesto a enxurrada de video-clips. Não gosto de ver concertos. Não quero observar o rosto do violinista nem a performance saltitante do maestro. Quero ouvir o som que o primeiro produz e o efeito global da condução do segundo.

Sim, todos os sentidos devem ser servidos e satisfeitos. A vida oferece momentos para todos, só estou criticando a ditadura do visual. O rosto de Tony Ramos expulsou o rosto do meu Riobaldo. Isso não é uma alegria, mas um lamento (nem estou desqualificando o excelente trabalho feito com Grande Sertão: Veredas).

Por que h(e)stórias? Foi uma grafia que inventei para lidar com a querela entre história, como relato de um acontecimento real, e estória, como narrativa ficcional, diferença não reconhecida oficialmente pelos linguistas, mas defendida pelo meu querido Guimarães Rosa e pelo meu também querido James Hillman, só que, neste caso, justificada pela língua inglesa. Ná prática, real e ficcional se misturam. O que difere é a proporção dos ingredientes.

Outra h(e)stória do nosso radialista. Representação da crucificação de Jesus na Semana Santa em Juazeiro do Norte. O cabra queria ser açoitado mesmo, para pagar uma promessa. Foi amarrado à cruz e termina falando: "meu Pai está tudo consumado!". Solta a cabeça representando a morte. Neste momento um menino solta uma bomba ao lado da cruz, uma daquelas usadas nos festejos juninos. O homem leva um baita susto, se solta da cruz, ajoelha e diz implorando: "valei meu Padre Ciço". Afinal de contas ali era Juazeiro, terra do Padre Cícero. Ele protege mais. Sua sacralidade está mais perto dos corações e da memória individual e coletiva.

Finalmente, um último caso. Parado por uma amiga ela lhe pede uma piada. Não havia piada naquele dia, mas ele canta para ela o Forró do Setentão.
"Completei 70 anos
A idade com que já estou
Mas se me fizer carinho
O velho ainda faz amor

É numa cama bem macia
Numa rede ou no chão
Pergunta a minha mulher
Ela vai lhe responder
Com certeza vai dizer
Meu Mazinho não mente não
Não mente não, não mente não, não mente não
O meu velho é gostosão".

O dono do hotel, conhecedor de cabo a rabo das h(e)stórias, lembrou ao Mazinho que havia uma resposta a este forró. A amiga foi conferir com sua mulher a veracidade do conto e obteve a seguinte confissão, cantada no mesmo ritmo do forró: "ele não faz mais nada não". Ele, então, é obrigado a oferecer uma tréplica: "deixe de adivinhação"!

Saí dali correndo. Um pouco mais e a viagem mudaria de direção.

terça-feira, 22 de março de 2011

9. A Praça das Aves


Por que adornamos? Não devemos dar explicações econômicas para este fato, muito pelo contrário. Adornar vasos de argila — como os que podem ser vistos em qualquer museu que contenha peças indígenas, as cerâmicas marajoara e inca seriam dois grandes exemplos — , que são utilizadas para armazenar água ou frutas e grãos, ou seja, que possuem uma função eminentemente prática, não só toma tempo como dá muito mais trabalho. Então, por que fazê-lo? 

James Hillman comenta este fato em vários momentos de sua vasta obra onde demonstra a "necessidade da alma de beleza" (Beleza natural sem natureza; In: Cidade e Alma, pág. 122). Hillman aponta, inclusive, uma repressão da beleza no discurso psicológico. Os ideais ou padrões estéticos raramente são discutidos em uma sessão analítica. Lembro-me de uma mulher que há muito tempo eu atendi. Ela se queixava de um freezer que havia ganho que, além de atrapalhar sua mobilidade e não lhe ter a menor serventia, ainda por cima enfeiava sua cozinha. Trabalhamos o por que de seu desejo de beleza estar congelado e lhe impedir de se livrar do trambolho. Citando Hillman:

Essa curiosa recusa de admitir a beleza no discurso psicológico ocorre mesmo que cada um de nós saiba que nada afeta tanto a alma, transporta-a tanto, como os momentos de beleza — na natureza, um rosto, uma canção, uma ação ou um sonho. E sentimos que esses momentos são terapêuticos no sentido mais verdadeiro: fazem-nos reconhecer a alma e seu valor. Fomos tocados bela beleza. E, como disse, a terapia nunca discute esse fato em sua teoria, e a estética não tem nenhum papel na prática terapêutica, na teoria do desenvolvimento, na transferência, nas noções de tratamento bem-sucedido ou fracassado, e no término da terapia. Sentimos medo de seu poder? (A repressão da beleza; in: Cidade e Alma, pág. 129).

Aqui não é lugar para maiores considerações sobre o assunto. Somente reconhecer que, diante da beleza, a alma se expande, enquanto que, na presença da feiúra, a alma se contrai. Hillman está aqui seguindo o filósofo helenístico Plotino, um dos especialistas acerca da alma. Não devemos esquecer, no entanto, das normas estéticas que definem, de acordo com a época e inúmeros contextos, o que é belo ou feio. Essas definições, obviamente, variam muito. Mas mesmo uma pessoa "feia" vai se preocupar em aparecer com algo belo.



Estava no carro próximo ao portal que indicava a entrada do município de Baía da Traição. Era uma rua-estrada longa e ampla. De ambos os lados casas. Tirando o asfalto as margens eram de 
terra batida ladeando a estrada. Tudo igual. De repente uma diferença. Ela me atingiu e me fez parar. Diante de uma casa percebi um cercadinho com inúmeros pássaros de cerâmica, dispostos de tal forma que dava a impressão de viverem ali. Duas árvores protegiam as aves e os humanos do sol intenso. Um pouco de sombra é uma experiência de beleza. O chão, diferentemente do se encontrava ao redor do cercadinho, estava coberto de grama. Sem dúvida, um ambiente agradável. Perguntei à proprietária o significado daquele espaço, com as cercas impedindo que a feiúra da terra nua invadisse o local e ela timidamente me respondeu: é para ficar mais bonito! Nada mais é necessário dizer.

 Eis aí a prova de que Hillman está certo. Perguntado por uma amiga que estava recostada confortavelmente em um banco dentro da praça das aves de onde eu era, ao responder que sou do Rio de Janeiro, ela imediatamente protestou. Havia visitado o Rio em dezembro. O céu estava todo azul, exceto no alto do Cristo Redentor, que estava encoberto por nuvens justamente no momento em que ela e as amigas estavam lá visitando-o. A beleza, infelizmente, nem sempre é dada com facilidade. Ela deve ser construída ou buscada com paciência.

domingo, 20 de março de 2011

8. Comedores de Camarão (e de Gente)

Baía da Traição, Paraíba. Um dos municípios mais antigos do estado. O nome é sugestivo. Quem traiu quem nesta história? Os traidores só poderiam ser, obviamente, os índios. Há várias versões para o nome do local que originalmente chamava-se Acejutibiró. Caju azedo, cajual desfeito, cajual da sodomia (tebiró significa homem que faz papel de mulher em tupi), são as traduções mais defendidas. Para explicar o re-batismo para Traição ou Baía da Traição são sempre mencionadas as traições que os índios fizeram com os portugueses. Depois de serem recebidos com hospitalidade foram devorados por seus anfitriões. "O que estes gajos têm contra nós", devem ter-se perguntado os bondosos lusitanos. Mesmo sem saber a resposta (trabalhos forçados e roubo das terras não seriam motivos suficientes) decretaram: estes índios são uns traidores!


Marco de entrada na Baía da Traição
As confusões, no entanto, não pararam aí. Quatro grupos estariam envolvidos e o caso se deu há muito tempo. Os índios potiguaras, os comedores de camarão, habitantes originais da terra, os portugueses, os "descobridores" do Brasil, os franceses, primeiro, e, depois, os holandeses, que vieram atrás das farturas gratuitas que a terra oferecia, especialmente um tal de pau-brasil, que havia em grande abundância e não iria fazer falta, mesmo se fossem arrancados de forma predatória. Afinal de contas os europeus precisavam de muita madeira para a confecção de seus móveis coloniais. Os franceses chegaram com cara de bonzinhos (talvez trazendo queijos e vinhos) e logo começaram a falar mal dos portugueses. Incentivaram os índios a atacar nossos patrícios. Os portugueses defenderam "sua" terra com bravura. Expulsaram os franceses, mataram um grande punhado de potiguaras, fazia parte do catecismo da época, e estabeleceram a ordem (não tenho informações se isto incluía o progresso). Encantados com as mesas, cadeiras, armários, etc., que os franceses fizeram com o famoso pau, os holandeses vieram pegar a sua cota. Por um motivo inexplicável, foram bem recebidos pelos índios. Como os franceses, falaram mal dos portugueses e incentivaram os índios novamente a se rebelar. Ocorreu outra pancadaria. Os portugueses defenderam "sua" terra com bravura. Expulsaram os holandeses, mataram desta vez um punhado muito grande de potiguaras, fazia parte do catecismo da época, dominaram o lugar e estabeleceram a ordem (ainda não obtive informações se isto incluía o progresso). Por via das dúvidas, colocaram alguns canhões no alto de uma falésia. Vai que outros conterrâneos (ingleses, espanhóis e italianos) passassem também a gostar de fabricar utensílios de madeira! 





O processo de pacificação e domesticação dos índios incluía, é desnecessário dizer, um esforço da parte dos
civilizados para ajudá-los a evoluir espiritualmente. Aí entra a catequização. Transformados em novos-cristãos tiveram que chamar seus filhos e a si mesmos com nomes da língua dos religiosos colonizadores. O sobrenome mais utilizado foi Camarão, visto que poty, em tupi, significava camarão. Um dos Camarões mais famosos da nossa história foi Antônio Filipe, que lutou bravamente junto aos portugueses contra os invasores holandeses.



Hoje a aldeia dos potiguaras na Baía da Traição é fortemente cristianizada. Grupos católicos e protestantes marcam sua presença. Numa igreja dentro da aldeia propriamente dita vi uma imagem interessante. Antes será preciso uma outra consideração. Os santos trazidos e impostos pelos colonizadores brancos com frequência apiedavam-se dos colonizados aparecendo para os indígenas e oferecendo-lhes conforto e proteção. Compartilhavam, inclusive, os mesmos traços étnicos do resto da população. Isto aconteceu, por exemplo, com a Nossa Senhora de Guadalupe que em 1531 revelou-se ao índio Quauhtlatoatzin (Juan Diego) e pediu-lhe que comunicasse seu desejo que fosse construída uma igreja em sua homenagem, na cidade do México. 


Igreja da Aldeia dos Potiguaras
Voltando à Baía da Traição. Construída a pequena Igreja na aldeia surgia a questão de qual santo homenagear. A princípio seria São José, o nobre pai de Jesus. Apareceram, porém, índios vindo do México divulgando sua versão do catolicismo. A padroeira da aldeia passou a ser Nossa Senhora de Guadalupe, com seu inequívoco halo dourado. Para marcar ainda mais sua vinculação com os potiguaras, sua cabeça foi adornada com um belo cocar indígena.


Esta história me foi contada por uma índia que limpava a Igreja.

Baía da Traição é um lugar que merece ser visitado, com praias belíssimas. E acrescento, suas águas não me traíram. São quentes e acolhedoras como no resto do nordeste.



sábado, 19 de março de 2011

7. Homem que Come Gente

Admito uma certa ambivalência em relação ao fato, visto que nosso país está infestado de mazelas: hospitais públicos depredados, estradas esburadas que matam pessoas, violência urbana e rural, corrupção desenfreada e generalizada, etc. Em suma, como disse um dos que faziam parte de seu grupo, "muita saúva e pouca saúde" são os males que assolam o país. Mas terem deixado uma das obras de arte mais representativas da nossa história e identidade cultural não se encontrar mais no país é lamentável. Estou falando do quadro Abaporu de Tarsila do Amaral, pintado em 1928. Um esforço deveria ter sido feito para manter a obra em nossos museus. Empresas e bancos (que lucram enormemente com as políticas econômicas) poderiam ter adquirido o quadro e ofertado a todos nós.


Presente de Tarsila ao seu marido Oswaldo de Andrade, o Abaporu (homem que come gente) é um marco do modernismo brasileiro e sua visão antropofágica. Valorizando as temáticas brasileiras, aproximando-nos da prática indígena (o tupy or not tupy de Oswaldo de Andrade) do banquete canibalístico, sugerindo que devemos comer a cultura estrangeira para digeri-la de forma brasileira. Como faziam os habitantes originais do Brasil.


Cenas de um banquete antropofágico retratados em
ladrilhos. Fortaleza de Santa Catarina, João Pessoa, PB

O Apaporu retrata um brasileiro típico habitante da caatinga. O sol forte e o mandacaru revelam um modo de vida difícil que exige do homem muita perseverança e trabalho, por isso a mão e o pé são retratados em primeiro plano, grandes e distantes da cabeça que, pequena e talvez resignada, descansa sobre o braço. Não vi pessoalmente nem o quadro nem a caatinga que ele retrata. Fui perambular para conhecê-la, mas a terra, umedecida pela chuva, revelou sua face verde. Os mandacarus estavam presentes, mas junto com inúmeros outros arbustos. Nas estradas, homens e mulheres de pés e mão grandes (isso eu vi) vendiam, em grande quantidade, os frutos da terra: umbu, siriguela e fruta-do-conde. Ainda bem que a natureza não obedece minha curiosidade e desejo.

Sertão da Paraíba

O Abaporu está em casa. Não definitivamente. Ele pertence a um colecionador argentino que o adquiriu por US$ 1,5 milhão. Faz parte da exposição “Mulheres Artistas e Brasileiras” que se encontra no Palácio do Planalto em Brasília.

O presidente americano teve o prazer de visitá-la em primeira mão. Será muito triste ver o quadro partir (ao lado ele sendo levado ao local da exposição, sob forte segurança). O que fazemos com nossa cultura?

quarta-feira, 16 de março de 2011

6. A Casa do Leo

Um dia absolutamente desalmado. Não conseguimos fazer o que haviamos planejado. Ora por dificuldades técnicas como trilhas inacessíveis, ora por "descuido das autoridades". É impressionante a falta de um guia com os principais pontos de interesse para facilitar a vida do visitante. Nenhuma informação. Fomos atrás. Lugares míticos para os índios Kariri, como o lago da mãe d'água, não foram achados, não por que eram lugares vedados a dois "cara-pálidas", mas porque simplesmente não entendemos suas indicações. Paciência. Entramos na chapada do Araripe. Fomos até Santana do Cariri. Tirando a beleza do lugar nada pudemos ver. Era carnaval, não havia nada! Nem carnaval. Voltamos. Ir agora para onde? Voltar para Crato e Juazeiro do Norte ou ir para um outro lugar? Decidimos entrar em Pernambuco e ir para Exu, cidade do rei do baião. Perguntei a uma mulher onde ficava o centro da cidade. Ela rapidamente respondeu: perto da casa do Leo. Não perguntei onde ficava a casa do Leo, pois já sabia a resposta: perto do centro. Não gosto de looping. Era carnaval, não havia nada! Nem carnaval. Nem um forrozinho pé de serra. Nada. Coitado do Luiz Gonzaga. Em resumo: nada tocou minha alma. Tem momentos que ela fica quietinha esperando os acontecimentos do dia seguinte!


5. O Para Que de Deus

Ela me convenceu: Deus existe! Ouso acrescentar: mesmo que não seja de verdade, mas que ele existe, existe. E tem uma função especial, que é a de promover o para que. Para ela, sempre que encontramos um propósito nos acontecimentos, ouvimos, de certa maneira, a voz de Deus, principalmente naqueles acontecimentos que consideramos funestos, desagradáveis. Deus ajuda-nos a elaborar o que ocorreu, não simplesmente através da postura passiva e conformista do "assim Deus quis", mas da postura ativa e reflexiva do "o que Deus quer de mim com isso".


A quem me refiro quando digo ela? Foi um encontro fortuito. Os grandes encontros, os inesperados, aqueles que nos pegam de surpresa, devem sempre ser fortuitos. Nos planejados, naqueles que buscamos conscientemente, já temos, no mínimo, uma pré-compreensão do que poderá ocorrer. Nos fortuitos não. São as esquinas pelas quais passamos, como diz a música. Ao dobrá-las, não sei o que vou encontrar. James Hillman escreveu, certa vez, que uma cidade com alma é uma cidade que comporta e gera surpresas. Pois bem. Estava no ponto mais oriental das Américas, o lugar mais próximo da África, na cidade de João Pessoa. Fui lá para encontrar um escultor. Ele não havia chegado ainda. Fui matar o tempo (que crueldade fazemos com o tempo, principalmente, porque não sabemos quanto tempo temos para matar) numa lojinha de souvenir que existe no local. Foi ali que ocorreu o grande encontro, o meu encontro com uma velha-sábia. Não que parecesse velha, apesar dos seus 72 anos, mas a função arquetípica lhe cai muito bem. Chama-se Cida. Cearense de Fortaleza, mas agora vivendo na capital da Paraíba, em frente a Dakar, capital do Senegal. Perguntei se era ela em uma foto e isto foi o ponto de partida para uma grande lição de vida que recebi. Não sou capaz de reproduzir tudo que ela me falou, não só por causa da quantidade, mas também devido à profundidade de seu pensamento. Trabalha como conselheira matrimonial numa Igreja. Seu objetivo é passar sua experiência de um longo casamento onde pode desenvolver seu potencial de sabedoria. "Minha faculdade foi o matrimônio". Seu marido era alcóolatra, diabético e viciado em doces. Morreu por causa das complicações causadas por esta trinca. Ele levou 30 anos para deixar de beber; segundo ela, cada ferida tem um tempo certo para cicatrizar. Seu amor era uma garrafa pet de 2 litros. Cheia. O dele era um copo, também cheio. Isso é que era importante. Os dois davam o máximo de seu amor ao outro. Seu filho foi morto por bandidos em um assalto. Neste ponto é que ela introduz o tema do "para que". Para que ela tinha que passar por esta provação? Talvez para conseguir ajudar os outros a suportar o sofrimento. Ela tem razão. Nada melhor que o exemplo para ajudar as pessoas. Para que o escultor se atrasou? Para termos aquela conversa. Eu estava precisando.


Segundo ela, tudo que fazemos sempre tem uma testemunha, sempre tem um "cearense enxerido" vendo tudo e contando em casa. Testemunhas de Deus para os descaminhos do Demônio. As imagens que ela utilizava eram claras e perfeitas.


Pediu-me para escrever algo sobre este encontro em um livro de depoimentos que ela guarda. Assim que terminei de escrever, o escultor chegou. Bem mais tarde tive a oportunidade de aplicar a lição do para que reproduzindo nossa conversa. O efeito foi surpreendente.

Quem quer que vá à Paraíba, não deixe de procurá-la. Para que? Depois do encontro você vai saber. 

sábado, 12 de março de 2011

4. Onde Estão os Tiranossauros?

Por que os dinossauros fascinam? Talvez pela grandiosa exibição de poder devido a seus tamanhos e suas ferocidades. Tudo neles é hiperbólico: a vibração de seu caminhar, a quantidade enorme de comida necessária à sua sobrevivência e, em contrapartida é óbvio, o volume de seus dejetos. Mas na visita ao Vale dos Dinossauros (Sousa, na Paraíba) pude observar o interesse também gigante do pequeno Mateus, de 5 anos, pelo mundo jurássico. A explicação dos pais foi naturalmente os filmes de Spielberg, poderosos e assustadores. Acho esta explicação pouco confiável. Pode ser que ela explique algo, mas não explica tudo. Seus pais não me pareceram admiradores influentes do tema. A paixão em comum logo nos colocou em contato. Tive que contar para ele, embora deteste destruir a fantasia de uma criança com dados de realidade, pois ela terá o resto de sua vida para aprender sobre ela, que ali não viveu nosso animal de estimação, o tiranossauro rex. Pergunto-me agora: por que falei isso para ele? Acho que foi um desabafo. Que droga Mateus, aqui não tem tiranossauros, vamos ter que procurar em outro lugar! Diante de réplicas em resina de dois rapitores ele não titubeou: de posse de gestos ancestrais, atacou implacavelmente os animais com socos e golpes, reconhecendo certamente um inimigo a ser combatido, caso tivessemos tido a sorte de coabitar com eles. Na volta voltei a fantasiar. Mostrei para ele o que parecia uma pegada na lama com uma linha que eu disse ser a rastro do rabo dele. Ele imediatamente me corrigiu dizendo que aquilo era a marca da garra, pois estava fino e o rabo é grosso. Desculpe-me Mateus, estou ficando velho e esquecendo que a fantasia não precisa ser real, mas sim realista. De volta à sede do Vale dos Dinossauros eis que ele aparece, uma escultura com a silhueta de um tiranossauro rex, inteira e grande bem à nossa frente. Ele mais que depressa correu em sua direção. Sua felicidade só não foi maior porque detrás da escultura (agora revificada pela imaginação) apareceu um cachorrossauro. Tem horas que a realidade só aparece para estragar a brincadeira. De qualquer maneira, sua mãe lhe deu 4 chaveiros com dinossauros. Eu comprei uma camiseta. Os chaveiros eu já tenho.