"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

sábado, 26 de março de 2011

10. Contadores de H(e)stórias

O tema ainda é a questão da beleza. Para ser mais preciso, do seu oposto, a feiúra. O objetivo também é diferente. Dessa vez, gerar risos.

Cidade de Crato, no Ceará. Sou apresentado ao dono do hotel que conversava com uma mulher e outro homem, magro e baixo. O proprietário era também magro, só que alto. O baixo trabalhava em uma rádio da cidade e era um grande contador de casos. Foi instigado pelo dono do hotel a narrar algumas de suas h(e)stórias. Ele certamente conhecia todas, pois era ele quem invocava o repertório do contador. Mesmo já conhecidas, não havendo mais nenhum elemento de surpresa, ele visivelmente se deliciava com as narrativas. O prazer estava em ouvi-las, incontáveis vezes. O radialista então conta. Voz bonita chegando aos ouvidos de muitas mulheres, uma delas inevitavelmente se apaixonou. Telefonemas insistentes no intuito de marcar um encontro. Finalmente acordaram uma data. Surgiu então, na mulher, um temor que foi logo compartilhado com o dono da bela voz. Tenho medo que você me ache muito feia!, exclamou a mulher. Ele lhe respondeu: "isso não tem problema; venha aqui na rádio e vamos ver quem vai sair correndo primeiro". O dono do hotel se arreganhava de rir (mais uma vez).

Que beleza são os contadores e cantadores de h(e)stórias. É uma arte. Não é para ser vista, tocada, mas para ser ouvida. A narrativa e as palavras, ou melhor, as palavras da narrativa é que importa. Quem precisar de algo mais imagine. Será que desaprendemos a ouvir? Até mesmo a música é agora vista. Detesto a enxurrada de video-clips. Não gosto de ver concertos. Não quero observar o rosto do violinista nem a performance saltitante do maestro. Quero ouvir o som que o primeiro produz e o efeito global da condução do segundo.

Sim, todos os sentidos devem ser servidos e satisfeitos. A vida oferece momentos para todos, só estou criticando a ditadura do visual. O rosto de Tony Ramos expulsou o rosto do meu Riobaldo. Isso não é uma alegria, mas um lamento (nem estou desqualificando o excelente trabalho feito com Grande Sertão: Veredas).

Por que h(e)stórias? Foi uma grafia que inventei para lidar com a querela entre história, como relato de um acontecimento real, e estória, como narrativa ficcional, diferença não reconhecida oficialmente pelos linguistas, mas defendida pelo meu querido Guimarães Rosa e pelo meu também querido James Hillman, só que, neste caso, justificada pela língua inglesa. Ná prática, real e ficcional se misturam. O que difere é a proporção dos ingredientes.

Outra h(e)stória do nosso radialista. Representação da crucificação de Jesus na Semana Santa em Juazeiro do Norte. O cabra queria ser açoitado mesmo, para pagar uma promessa. Foi amarrado à cruz e termina falando: "meu Pai está tudo consumado!". Solta a cabeça representando a morte. Neste momento um menino solta uma bomba ao lado da cruz, uma daquelas usadas nos festejos juninos. O homem leva um baita susto, se solta da cruz, ajoelha e diz implorando: "valei meu Padre Ciço". Afinal de contas ali era Juazeiro, terra do Padre Cícero. Ele protege mais. Sua sacralidade está mais perto dos corações e da memória individual e coletiva.

Finalmente, um último caso. Parado por uma amiga ela lhe pede uma piada. Não havia piada naquele dia, mas ele canta para ela o Forró do Setentão.
"Completei 70 anos
A idade com que já estou
Mas se me fizer carinho
O velho ainda faz amor

É numa cama bem macia
Numa rede ou no chão
Pergunta a minha mulher
Ela vai lhe responder
Com certeza vai dizer
Meu Mazinho não mente não
Não mente não, não mente não, não mente não
O meu velho é gostosão".

O dono do hotel, conhecedor de cabo a rabo das h(e)stórias, lembrou ao Mazinho que havia uma resposta a este forró. A amiga foi conferir com sua mulher a veracidade do conto e obteve a seguinte confissão, cantada no mesmo ritmo do forró: "ele não faz mais nada não". Ele, então, é obrigado a oferecer uma tréplica: "deixe de adivinhação"!

Saí dali correndo. Um pouco mais e a viagem mudaria de direção.

terça-feira, 22 de março de 2011

9. A Praça das Aves


Por que adornamos? Não devemos dar explicações econômicas para este fato, muito pelo contrário. Adornar vasos de argila — como os que podem ser vistos em qualquer museu que contenha peças indígenas, as cerâmicas marajoara e inca seriam dois grandes exemplos — , que são utilizadas para armazenar água ou frutas e grãos, ou seja, que possuem uma função eminentemente prática, não só toma tempo como dá muito mais trabalho. Então, por que fazê-lo? 

James Hillman comenta este fato em vários momentos de sua vasta obra onde demonstra a "necessidade da alma de beleza" (Beleza natural sem natureza; In: Cidade e Alma, pág. 122). Hillman aponta, inclusive, uma repressão da beleza no discurso psicológico. Os ideais ou padrões estéticos raramente são discutidos em uma sessão analítica. Lembro-me de uma mulher que há muito tempo eu atendi. Ela se queixava de um freezer que havia ganho que, além de atrapalhar sua mobilidade e não lhe ter a menor serventia, ainda por cima enfeiava sua cozinha. Trabalhamos o por que de seu desejo de beleza estar congelado e lhe impedir de se livrar do trambolho. Citando Hillman:

Essa curiosa recusa de admitir a beleza no discurso psicológico ocorre mesmo que cada um de nós saiba que nada afeta tanto a alma, transporta-a tanto, como os momentos de beleza — na natureza, um rosto, uma canção, uma ação ou um sonho. E sentimos que esses momentos são terapêuticos no sentido mais verdadeiro: fazem-nos reconhecer a alma e seu valor. Fomos tocados bela beleza. E, como disse, a terapia nunca discute esse fato em sua teoria, e a estética não tem nenhum papel na prática terapêutica, na teoria do desenvolvimento, na transferência, nas noções de tratamento bem-sucedido ou fracassado, e no término da terapia. Sentimos medo de seu poder? (A repressão da beleza; in: Cidade e Alma, pág. 129).

Aqui não é lugar para maiores considerações sobre o assunto. Somente reconhecer que, diante da beleza, a alma se expande, enquanto que, na presença da feiúra, a alma se contrai. Hillman está aqui seguindo o filósofo helenístico Plotino, um dos especialistas acerca da alma. Não devemos esquecer, no entanto, das normas estéticas que definem, de acordo com a época e inúmeros contextos, o que é belo ou feio. Essas definições, obviamente, variam muito. Mas mesmo uma pessoa "feia" vai se preocupar em aparecer com algo belo.



Estava no carro próximo ao portal que indicava a entrada do município de Baía da Traição. Era uma rua-estrada longa e ampla. De ambos os lados casas. Tirando o asfalto as margens eram de 
terra batida ladeando a estrada. Tudo igual. De repente uma diferença. Ela me atingiu e me fez parar. Diante de uma casa percebi um cercadinho com inúmeros pássaros de cerâmica, dispostos de tal forma que dava a impressão de viverem ali. Duas árvores protegiam as aves e os humanos do sol intenso. Um pouco de sombra é uma experiência de beleza. O chão, diferentemente do se encontrava ao redor do cercadinho, estava coberto de grama. Sem dúvida, um ambiente agradável. Perguntei à proprietária o significado daquele espaço, com as cercas impedindo que a feiúra da terra nua invadisse o local e ela timidamente me respondeu: é para ficar mais bonito! Nada mais é necessário dizer.

 Eis aí a prova de que Hillman está certo. Perguntado por uma amiga que estava recostada confortavelmente em um banco dentro da praça das aves de onde eu era, ao responder que sou do Rio de Janeiro, ela imediatamente protestou. Havia visitado o Rio em dezembro. O céu estava todo azul, exceto no alto do Cristo Redentor, que estava encoberto por nuvens justamente no momento em que ela e as amigas estavam lá visitando-o. A beleza, infelizmente, nem sempre é dada com facilidade. Ela deve ser construída ou buscada com paciência.

domingo, 20 de março de 2011

8. Comedores de Camarão (e de Gente)

Baía da Traição, Paraíba. Um dos municípios mais antigos do estado. O nome é sugestivo. Quem traiu quem nesta história? Os traidores só poderiam ser, obviamente, os índios. Há várias versões para o nome do local que originalmente chamava-se Acejutibiró. Caju azedo, cajual desfeito, cajual da sodomia (tebiró significa homem que faz papel de mulher em tupi), são as traduções mais defendidas. Para explicar o re-batismo para Traição ou Baía da Traição são sempre mencionadas as traições que os índios fizeram com os portugueses. Depois de serem recebidos com hospitalidade foram devorados por seus anfitriões. "O que estes gajos têm contra nós", devem ter-se perguntado os bondosos lusitanos. Mesmo sem saber a resposta (trabalhos forçados e roubo das terras não seriam motivos suficientes) decretaram: estes índios são uns traidores!


Marco de entrada na Baía da Traição
As confusões, no entanto, não pararam aí. Quatro grupos estariam envolvidos e o caso se deu há muito tempo. Os índios potiguaras, os comedores de camarão, habitantes originais da terra, os portugueses, os "descobridores" do Brasil, os franceses, primeiro, e, depois, os holandeses, que vieram atrás das farturas gratuitas que a terra oferecia, especialmente um tal de pau-brasil, que havia em grande abundância e não iria fazer falta, mesmo se fossem arrancados de forma predatória. Afinal de contas os europeus precisavam de muita madeira para a confecção de seus móveis coloniais. Os franceses chegaram com cara de bonzinhos (talvez trazendo queijos e vinhos) e logo começaram a falar mal dos portugueses. Incentivaram os índios a atacar nossos patrícios. Os portugueses defenderam "sua" terra com bravura. Expulsaram os franceses, mataram um grande punhado de potiguaras, fazia parte do catecismo da época, e estabeleceram a ordem (não tenho informações se isto incluía o progresso). Encantados com as mesas, cadeiras, armários, etc., que os franceses fizeram com o famoso pau, os holandeses vieram pegar a sua cota. Por um motivo inexplicável, foram bem recebidos pelos índios. Como os franceses, falaram mal dos portugueses e incentivaram os índios novamente a se rebelar. Ocorreu outra pancadaria. Os portugueses defenderam "sua" terra com bravura. Expulsaram os holandeses, mataram desta vez um punhado muito grande de potiguaras, fazia parte do catecismo da época, dominaram o lugar e estabeleceram a ordem (ainda não obtive informações se isto incluía o progresso). Por via das dúvidas, colocaram alguns canhões no alto de uma falésia. Vai que outros conterrâneos (ingleses, espanhóis e italianos) passassem também a gostar de fabricar utensílios de madeira! 





O processo de pacificação e domesticação dos índios incluía, é desnecessário dizer, um esforço da parte dos
civilizados para ajudá-los a evoluir espiritualmente. Aí entra a catequização. Transformados em novos-cristãos tiveram que chamar seus filhos e a si mesmos com nomes da língua dos religiosos colonizadores. O sobrenome mais utilizado foi Camarão, visto que poty, em tupi, significava camarão. Um dos Camarões mais famosos da nossa história foi Antônio Filipe, que lutou bravamente junto aos portugueses contra os invasores holandeses.



Hoje a aldeia dos potiguaras na Baía da Traição é fortemente cristianizada. Grupos católicos e protestantes marcam sua presença. Numa igreja dentro da aldeia propriamente dita vi uma imagem interessante. Antes será preciso uma outra consideração. Os santos trazidos e impostos pelos colonizadores brancos com frequência apiedavam-se dos colonizados aparecendo para os indígenas e oferecendo-lhes conforto e proteção. Compartilhavam, inclusive, os mesmos traços étnicos do resto da população. Isto aconteceu, por exemplo, com a Nossa Senhora de Guadalupe que em 1531 revelou-se ao índio Quauhtlatoatzin (Juan Diego) e pediu-lhe que comunicasse seu desejo que fosse construída uma igreja em sua homenagem, na cidade do México. 


Igreja da Aldeia dos Potiguaras
Voltando à Baía da Traição. Construída a pequena Igreja na aldeia surgia a questão de qual santo homenagear. A princípio seria São José, o nobre pai de Jesus. Apareceram, porém, índios vindo do México divulgando sua versão do catolicismo. A padroeira da aldeia passou a ser Nossa Senhora de Guadalupe, com seu inequívoco halo dourado. Para marcar ainda mais sua vinculação com os potiguaras, sua cabeça foi adornada com um belo cocar indígena.


Esta história me foi contada por uma índia que limpava a Igreja.

Baía da Traição é um lugar que merece ser visitado, com praias belíssimas. E acrescento, suas águas não me traíram. São quentes e acolhedoras como no resto do nordeste.



sábado, 19 de março de 2011

7. Homem que Come Gente

Admito uma certa ambivalência em relação ao fato, visto que nosso país está infestado de mazelas: hospitais públicos depredados, estradas esburadas que matam pessoas, violência urbana e rural, corrupção desenfreada e generalizada, etc. Em suma, como disse um dos que faziam parte de seu grupo, "muita saúva e pouca saúde" são os males que assolam o país. Mas terem deixado uma das obras de arte mais representativas da nossa história e identidade cultural não se encontrar mais no país é lamentável. Estou falando do quadro Abaporu de Tarsila do Amaral, pintado em 1928. Um esforço deveria ter sido feito para manter a obra em nossos museus. Empresas e bancos (que lucram enormemente com as políticas econômicas) poderiam ter adquirido o quadro e ofertado a todos nós.


Presente de Tarsila ao seu marido Oswaldo de Andrade, o Abaporu (homem que come gente) é um marco do modernismo brasileiro e sua visão antropofágica. Valorizando as temáticas brasileiras, aproximando-nos da prática indígena (o tupy or not tupy de Oswaldo de Andrade) do banquete canibalístico, sugerindo que devemos comer a cultura estrangeira para digeri-la de forma brasileira. Como faziam os habitantes originais do Brasil.


Cenas de um banquete antropofágico retratados em
ladrilhos. Fortaleza de Santa Catarina, João Pessoa, PB

O Apaporu retrata um brasileiro típico habitante da caatinga. O sol forte e o mandacaru revelam um modo de vida difícil que exige do homem muita perseverança e trabalho, por isso a mão e o pé são retratados em primeiro plano, grandes e distantes da cabeça que, pequena e talvez resignada, descansa sobre o braço. Não vi pessoalmente nem o quadro nem a caatinga que ele retrata. Fui perambular para conhecê-la, mas a terra, umedecida pela chuva, revelou sua face verde. Os mandacarus estavam presentes, mas junto com inúmeros outros arbustos. Nas estradas, homens e mulheres de pés e mão grandes (isso eu vi) vendiam, em grande quantidade, os frutos da terra: umbu, siriguela e fruta-do-conde. Ainda bem que a natureza não obedece minha curiosidade e desejo.

Sertão da Paraíba

O Abaporu está em casa. Não definitivamente. Ele pertence a um colecionador argentino que o adquiriu por US$ 1,5 milhão. Faz parte da exposição “Mulheres Artistas e Brasileiras” que se encontra no Palácio do Planalto em Brasília.

O presidente americano teve o prazer de visitá-la em primeira mão. Será muito triste ver o quadro partir (ao lado ele sendo levado ao local da exposição, sob forte segurança). O que fazemos com nossa cultura?

quarta-feira, 16 de março de 2011

6. A Casa do Leo

Um dia absolutamente desalmado. Não conseguimos fazer o que haviamos planejado. Ora por dificuldades técnicas como trilhas inacessíveis, ora por "descuido das autoridades". É impressionante a falta de um guia com os principais pontos de interesse para facilitar a vida do visitante. Nenhuma informação. Fomos atrás. Lugares míticos para os índios Kariri, como o lago da mãe d'água, não foram achados, não por que eram lugares vedados a dois "cara-pálidas", mas porque simplesmente não entendemos suas indicações. Paciência. Entramos na chapada do Araripe. Fomos até Santana do Cariri. Tirando a beleza do lugar nada pudemos ver. Era carnaval, não havia nada! Nem carnaval. Voltamos. Ir agora para onde? Voltar para Crato e Juazeiro do Norte ou ir para um outro lugar? Decidimos entrar em Pernambuco e ir para Exu, cidade do rei do baião. Perguntei a uma mulher onde ficava o centro da cidade. Ela rapidamente respondeu: perto da casa do Leo. Não perguntei onde ficava a casa do Leo, pois já sabia a resposta: perto do centro. Não gosto de looping. Era carnaval, não havia nada! Nem carnaval. Nem um forrozinho pé de serra. Nada. Coitado do Luiz Gonzaga. Em resumo: nada tocou minha alma. Tem momentos que ela fica quietinha esperando os acontecimentos do dia seguinte!


5. O Para Que de Deus

Ela me convenceu: Deus existe! Ouso acrescentar: mesmo que não seja de verdade, mas que ele existe, existe. E tem uma função especial, que é a de promover o para que. Para ela, sempre que encontramos um propósito nos acontecimentos, ouvimos, de certa maneira, a voz de Deus, principalmente naqueles acontecimentos que consideramos funestos, desagradáveis. Deus ajuda-nos a elaborar o que ocorreu, não simplesmente através da postura passiva e conformista do "assim Deus quis", mas da postura ativa e reflexiva do "o que Deus quer de mim com isso".


A quem me refiro quando digo ela? Foi um encontro fortuito. Os grandes encontros, os inesperados, aqueles que nos pegam de surpresa, devem sempre ser fortuitos. Nos planejados, naqueles que buscamos conscientemente, já temos, no mínimo, uma pré-compreensão do que poderá ocorrer. Nos fortuitos não. São as esquinas pelas quais passamos, como diz a música. Ao dobrá-las, não sei o que vou encontrar. James Hillman escreveu, certa vez, que uma cidade com alma é uma cidade que comporta e gera surpresas. Pois bem. Estava no ponto mais oriental das Américas, o lugar mais próximo da África, na cidade de João Pessoa. Fui lá para encontrar um escultor. Ele não havia chegado ainda. Fui matar o tempo (que crueldade fazemos com o tempo, principalmente, porque não sabemos quanto tempo temos para matar) numa lojinha de souvenir que existe no local. Foi ali que ocorreu o grande encontro, o meu encontro com uma velha-sábia. Não que parecesse velha, apesar dos seus 72 anos, mas a função arquetípica lhe cai muito bem. Chama-se Cida. Cearense de Fortaleza, mas agora vivendo na capital da Paraíba, em frente a Dakar, capital do Senegal. Perguntei se era ela em uma foto e isto foi o ponto de partida para uma grande lição de vida que recebi. Não sou capaz de reproduzir tudo que ela me falou, não só por causa da quantidade, mas também devido à profundidade de seu pensamento. Trabalha como conselheira matrimonial numa Igreja. Seu objetivo é passar sua experiência de um longo casamento onde pode desenvolver seu potencial de sabedoria. "Minha faculdade foi o matrimônio". Seu marido era alcóolatra, diabético e viciado em doces. Morreu por causa das complicações causadas por esta trinca. Ele levou 30 anos para deixar de beber; segundo ela, cada ferida tem um tempo certo para cicatrizar. Seu amor era uma garrafa pet de 2 litros. Cheia. O dele era um copo, também cheio. Isso é que era importante. Os dois davam o máximo de seu amor ao outro. Seu filho foi morto por bandidos em um assalto. Neste ponto é que ela introduz o tema do "para que". Para que ela tinha que passar por esta provação? Talvez para conseguir ajudar os outros a suportar o sofrimento. Ela tem razão. Nada melhor que o exemplo para ajudar as pessoas. Para que o escultor se atrasou? Para termos aquela conversa. Eu estava precisando.


Segundo ela, tudo que fazemos sempre tem uma testemunha, sempre tem um "cearense enxerido" vendo tudo e contando em casa. Testemunhas de Deus para os descaminhos do Demônio. As imagens que ela utilizava eram claras e perfeitas.


Pediu-me para escrever algo sobre este encontro em um livro de depoimentos que ela guarda. Assim que terminei de escrever, o escultor chegou. Bem mais tarde tive a oportunidade de aplicar a lição do para que reproduzindo nossa conversa. O efeito foi surpreendente.

Quem quer que vá à Paraíba, não deixe de procurá-la. Para que? Depois do encontro você vai saber. 

sábado, 12 de março de 2011

4. Onde Estão os Tiranossauros?

Por que os dinossauros fascinam? Talvez pela grandiosa exibição de poder devido a seus tamanhos e suas ferocidades. Tudo neles é hiperbólico: a vibração de seu caminhar, a quantidade enorme de comida necessária à sua sobrevivência e, em contrapartida é óbvio, o volume de seus dejetos. Mas na visita ao Vale dos Dinossauros (Sousa, na Paraíba) pude observar o interesse também gigante do pequeno Mateus, de 5 anos, pelo mundo jurássico. A explicação dos pais foi naturalmente os filmes de Spielberg, poderosos e assustadores. Acho esta explicação pouco confiável. Pode ser que ela explique algo, mas não explica tudo. Seus pais não me pareceram admiradores influentes do tema. A paixão em comum logo nos colocou em contato. Tive que contar para ele, embora deteste destruir a fantasia de uma criança com dados de realidade, pois ela terá o resto de sua vida para aprender sobre ela, que ali não viveu nosso animal de estimação, o tiranossauro rex. Pergunto-me agora: por que falei isso para ele? Acho que foi um desabafo. Que droga Mateus, aqui não tem tiranossauros, vamos ter que procurar em outro lugar! Diante de réplicas em resina de dois rapitores ele não titubeou: de posse de gestos ancestrais, atacou implacavelmente os animais com socos e golpes, reconhecendo certamente um inimigo a ser combatido, caso tivessemos tido a sorte de coabitar com eles. Na volta voltei a fantasiar. Mostrei para ele o que parecia uma pegada na lama com uma linha que eu disse ser a rastro do rabo dele. Ele imediatamente me corrigiu dizendo que aquilo era a marca da garra, pois estava fino e o rabo é grosso. Desculpe-me Mateus, estou ficando velho e esquecendo que a fantasia não precisa ser real, mas sim realista. De volta à sede do Vale dos Dinossauros eis que ele aparece, uma escultura com a silhueta de um tiranossauro rex, inteira e grande bem à nossa frente. Ele mais que depressa correu em sua direção. Sua felicidade só não foi maior porque detrás da escultura (agora revificada pela imaginação) apareceu um cachorrossauro. Tem horas que a realidade só aparece para estragar a brincadeira. De qualquer maneira, sua mãe lhe deu 4 chaveiros com dinossauros. Eu comprei uma camiseta. Os chaveiros eu já tenho.

3. Marcas do Passado

Talvez muitos já tenham feito sem sabê-lo, no mínimo, passado por cima... Falo isso mais por dedução do que por provas factuais, mas a sensação de caminhar ao lado de pegadas de dinossauros é incrível! Ali estavam as marcas das patas de três dedos de um temido velociraptor (velocirápido na tradução do guia), talvez voltando ou indo de uma caçada. Isto há aproximadamente 150 milhões de anos atrás, sem nenhum ser-humano para testemunhar, mesmo de longe, este perigoso caminhar. O sentimento diante desta antiguidade é de gravidade, não a newtoniana, mas a que sugere valores e reflexões. Eles surgiram e desapareceram. Depois, nós surgimos e ainda não desaparecemos. A vida se movimenta em ciclos e gostei de não poder esquecer disso. Dar maior importância às pequenas coisas que realizamos todos os dias. Quantas vezes ainda poderemos realizá-las? Não eu, mas todos nós.


Pegada de velociraptor (à esquerda)

2. Culto Solar

Quem percorreu as páginas de Memórias, Sonhos e Reflexões deve se lembrar do relato que Jung fez de uma de suas inúmeras viagens. Refiro-me àquela que conduziu Jung e sua trupe mambembe (segundo informações testemunhais) à Africa Negra. Ele pode testemunhar um rito onde os habitantes saudavam e ajudavam o sol. Esta era a tarefa a que eles foram incumbidos. Tarefa que, simultaneamente, pesava-lhes sobre os ombros e lhes trazia orgulho, dignidade e sentido. Agora o sol contava com a ajuda deste povo para poder funcionar e cada membro desta comunidade tinha esta tarefa grandiosa para realizar. Era ela que os ajudava a não sentirem suas vidas banais e sem sentido.

Aqui em Cabedelo, próximo a João Pessoa, pude testemunhar a existência de um "rito" semelhante. Todos os dias, ao entardecer, no Jacaré, uma praia fluvial, um saxofonista saúda o sol que se põe tocando-lhe o Bolero de Ravel. Todos os restaurantes do local, cada qual com seu grupo musical particular, silenciam suas apresentações para que todos participem deste momento: agradecer ao sol por mais um ciclo da sua e da nossa existência. O entardecer (que a Paraíba orgulhosamente anuncia ser o último lugar do Brasil a vê-lo, devido ao seu posicionamento geográfico) deixa de ser algo que acontece todos os dias, deixa de ser banalizado e explicado cientificamente como um fenômeno natural. O entardecer toma uma dimensão mítico-religiosa que não nos deixa esquecer que é ele quem garante a vida na terra e que nossas vidas individuais compartilham de seu ciclo e que é ela própria cíclica.




EEm uma espécie de inversão da antiga religião egípcia, que também cultuava o sol, mas comemorava o amanhecer, o sol renovado e renascido, aqui, na Paraíba, se homenageia o sol que se vai, em agradecimento por mais um dia que ele deu e por mais um dia que se teve. Tomara que amanhã eu consiga ouvir novamente os acordes insinuantes da bela composição.

terça-feira, 8 de março de 2011

1. Perambulando pela Paraíba - Pedra do Ingá

A primeira parada foi num lugarejo chamado Ingá. Chegamos junto com a manhã e com a vigésima-quarta hora acordados. Fomos lá, a princípio, para dormir. Não encontramos nada aberto. Escolhemos ficar acordados e ir dormir em Campina Grande. Fomos visitar, então, a Pedra de Itacoatiara, cheia de inscrições rupestres que ninguém até hoje decifrou com propriedade. Ninguém sabe o que as inscrições realmente significam. O guia chegou a falar em extra-terrestres como possíveis autores das inscrições. Gente chata estes extra-terrestres, me desculpe se algum estiver acessando a internet, mas vocês vivem querendo levar a fama pelos anseios transcendentais de nós humanos. Repetindo, ninguém sabe ao certo quem fez e quando fez. As inúmeras hipóteses vão desde os hititas, os habitantes da longíngua ilha de Páscoa, localizada no Pacífico, até a expressão de uma antiga civilização que ocorrera no Brasil, mas, que devido a algum tipo de dificuldade, desaparecera sem deixar maiores rastros. Para uns significam muita coisa; para outros, não significam nada, mas é sempre bom estar diante de um mistério.






Na pedra podemos perceber vários sinais. Círculos, espirais, linhas sinuosas, talvez um lagarto, figuras semelhantes a formas humanas, estrelas, sol. Realmente nada impede destes sinais não significarem nada. Um dia alguém desenhou a silhueta de um lagarto. Depois outros o imitaram e desenharam outros sinais. A imitação e a ausência de sentido são algumas características humanas. Prova disso é o sucesso (?) do Big Brother (o uso desta expressão é interessante e merece ser comentada, é uma promessa) com seu incansável desfile de imitações e nulidades. Portanto, afirmar, com certeza, que as inscrições da Pedra de Ingá significam algo é ser tomado por uma compulsão hermenêutica, expressão do filósofo Jacques Derrida utilizada para nomear a busca desenfreada por sentido que encontramos em algumas pessoas.