"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

sábado, 26 de março de 2011

10. Contadores de H(e)stórias

O tema ainda é a questão da beleza. Para ser mais preciso, do seu oposto, a feiúra. O objetivo também é diferente. Dessa vez, gerar risos.

Cidade de Crato, no Ceará. Sou apresentado ao dono do hotel que conversava com uma mulher e outro homem, magro e baixo. O proprietário era também magro, só que alto. O baixo trabalhava em uma rádio da cidade e era um grande contador de casos. Foi instigado pelo dono do hotel a narrar algumas de suas h(e)stórias. Ele certamente conhecia todas, pois era ele quem invocava o repertório do contador. Mesmo já conhecidas, não havendo mais nenhum elemento de surpresa, ele visivelmente se deliciava com as narrativas. O prazer estava em ouvi-las, incontáveis vezes. O radialista então conta. Voz bonita chegando aos ouvidos de muitas mulheres, uma delas inevitavelmente se apaixonou. Telefonemas insistentes no intuito de marcar um encontro. Finalmente acordaram uma data. Surgiu então, na mulher, um temor que foi logo compartilhado com o dono da bela voz. Tenho medo que você me ache muito feia!, exclamou a mulher. Ele lhe respondeu: "isso não tem problema; venha aqui na rádio e vamos ver quem vai sair correndo primeiro". O dono do hotel se arreganhava de rir (mais uma vez).

Que beleza são os contadores e cantadores de h(e)stórias. É uma arte. Não é para ser vista, tocada, mas para ser ouvida. A narrativa e as palavras, ou melhor, as palavras da narrativa é que importa. Quem precisar de algo mais imagine. Será que desaprendemos a ouvir? Até mesmo a música é agora vista. Detesto a enxurrada de video-clips. Não gosto de ver concertos. Não quero observar o rosto do violinista nem a performance saltitante do maestro. Quero ouvir o som que o primeiro produz e o efeito global da condução do segundo.

Sim, todos os sentidos devem ser servidos e satisfeitos. A vida oferece momentos para todos, só estou criticando a ditadura do visual. O rosto de Tony Ramos expulsou o rosto do meu Riobaldo. Isso não é uma alegria, mas um lamento (nem estou desqualificando o excelente trabalho feito com Grande Sertão: Veredas).

Por que h(e)stórias? Foi uma grafia que inventei para lidar com a querela entre história, como relato de um acontecimento real, e estória, como narrativa ficcional, diferença não reconhecida oficialmente pelos linguistas, mas defendida pelo meu querido Guimarães Rosa e pelo meu também querido James Hillman, só que, neste caso, justificada pela língua inglesa. Ná prática, real e ficcional se misturam. O que difere é a proporção dos ingredientes.

Outra h(e)stória do nosso radialista. Representação da crucificação de Jesus na Semana Santa em Juazeiro do Norte. O cabra queria ser açoitado mesmo, para pagar uma promessa. Foi amarrado à cruz e termina falando: "meu Pai está tudo consumado!". Solta a cabeça representando a morte. Neste momento um menino solta uma bomba ao lado da cruz, uma daquelas usadas nos festejos juninos. O homem leva um baita susto, se solta da cruz, ajoelha e diz implorando: "valei meu Padre Ciço". Afinal de contas ali era Juazeiro, terra do Padre Cícero. Ele protege mais. Sua sacralidade está mais perto dos corações e da memória individual e coletiva.

Finalmente, um último caso. Parado por uma amiga ela lhe pede uma piada. Não havia piada naquele dia, mas ele canta para ela o Forró do Setentão.
"Completei 70 anos
A idade com que já estou
Mas se me fizer carinho
O velho ainda faz amor

É numa cama bem macia
Numa rede ou no chão
Pergunta a minha mulher
Ela vai lhe responder
Com certeza vai dizer
Meu Mazinho não mente não
Não mente não, não mente não, não mente não
O meu velho é gostosão".

O dono do hotel, conhecedor de cabo a rabo das h(e)stórias, lembrou ao Mazinho que havia uma resposta a este forró. A amiga foi conferir com sua mulher a veracidade do conto e obteve a seguinte confissão, cantada no mesmo ritmo do forró: "ele não faz mais nada não". Ele, então, é obrigado a oferecer uma tréplica: "deixe de adivinhação"!

Saí dali correndo. Um pouco mais e a viagem mudaria de direção.

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