"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

terça-feira, 22 de março de 2011

9. A Praça das Aves


Por que adornamos? Não devemos dar explicações econômicas para este fato, muito pelo contrário. Adornar vasos de argila — como os que podem ser vistos em qualquer museu que contenha peças indígenas, as cerâmicas marajoara e inca seriam dois grandes exemplos — , que são utilizadas para armazenar água ou frutas e grãos, ou seja, que possuem uma função eminentemente prática, não só toma tempo como dá muito mais trabalho. Então, por que fazê-lo? 

James Hillman comenta este fato em vários momentos de sua vasta obra onde demonstra a "necessidade da alma de beleza" (Beleza natural sem natureza; In: Cidade e Alma, pág. 122). Hillman aponta, inclusive, uma repressão da beleza no discurso psicológico. Os ideais ou padrões estéticos raramente são discutidos em uma sessão analítica. Lembro-me de uma mulher que há muito tempo eu atendi. Ela se queixava de um freezer que havia ganho que, além de atrapalhar sua mobilidade e não lhe ter a menor serventia, ainda por cima enfeiava sua cozinha. Trabalhamos o por que de seu desejo de beleza estar congelado e lhe impedir de se livrar do trambolho. Citando Hillman:

Essa curiosa recusa de admitir a beleza no discurso psicológico ocorre mesmo que cada um de nós saiba que nada afeta tanto a alma, transporta-a tanto, como os momentos de beleza — na natureza, um rosto, uma canção, uma ação ou um sonho. E sentimos que esses momentos são terapêuticos no sentido mais verdadeiro: fazem-nos reconhecer a alma e seu valor. Fomos tocados bela beleza. E, como disse, a terapia nunca discute esse fato em sua teoria, e a estética não tem nenhum papel na prática terapêutica, na teoria do desenvolvimento, na transferência, nas noções de tratamento bem-sucedido ou fracassado, e no término da terapia. Sentimos medo de seu poder? (A repressão da beleza; in: Cidade e Alma, pág. 129).

Aqui não é lugar para maiores considerações sobre o assunto. Somente reconhecer que, diante da beleza, a alma se expande, enquanto que, na presença da feiúra, a alma se contrai. Hillman está aqui seguindo o filósofo helenístico Plotino, um dos especialistas acerca da alma. Não devemos esquecer, no entanto, das normas estéticas que definem, de acordo com a época e inúmeros contextos, o que é belo ou feio. Essas definições, obviamente, variam muito. Mas mesmo uma pessoa "feia" vai se preocupar em aparecer com algo belo.



Estava no carro próximo ao portal que indicava a entrada do município de Baía da Traição. Era uma rua-estrada longa e ampla. De ambos os lados casas. Tirando o asfalto as margens eram de 
terra batida ladeando a estrada. Tudo igual. De repente uma diferença. Ela me atingiu e me fez parar. Diante de uma casa percebi um cercadinho com inúmeros pássaros de cerâmica, dispostos de tal forma que dava a impressão de viverem ali. Duas árvores protegiam as aves e os humanos do sol intenso. Um pouco de sombra é uma experiência de beleza. O chão, diferentemente do se encontrava ao redor do cercadinho, estava coberto de grama. Sem dúvida, um ambiente agradável. Perguntei à proprietária o significado daquele espaço, com as cercas impedindo que a feiúra da terra nua invadisse o local e ela timidamente me respondeu: é para ficar mais bonito! Nada mais é necessário dizer.

 Eis aí a prova de que Hillman está certo. Perguntado por uma amiga que estava recostada confortavelmente em um banco dentro da praça das aves de onde eu era, ao responder que sou do Rio de Janeiro, ela imediatamente protestou. Havia visitado o Rio em dezembro. O céu estava todo azul, exceto no alto do Cristo Redentor, que estava encoberto por nuvens justamente no momento em que ela e as amigas estavam lá visitando-o. A beleza, infelizmente, nem sempre é dada com facilidade. Ela deve ser construída ou buscada com paciência.

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