"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

domingo, 20 de março de 2011

8. Comedores de Camarão (e de Gente)

Baía da Traição, Paraíba. Um dos municípios mais antigos do estado. O nome é sugestivo. Quem traiu quem nesta história? Os traidores só poderiam ser, obviamente, os índios. Há várias versões para o nome do local que originalmente chamava-se Acejutibiró. Caju azedo, cajual desfeito, cajual da sodomia (tebiró significa homem que faz papel de mulher em tupi), são as traduções mais defendidas. Para explicar o re-batismo para Traição ou Baía da Traição são sempre mencionadas as traições que os índios fizeram com os portugueses. Depois de serem recebidos com hospitalidade foram devorados por seus anfitriões. "O que estes gajos têm contra nós", devem ter-se perguntado os bondosos lusitanos. Mesmo sem saber a resposta (trabalhos forçados e roubo das terras não seriam motivos suficientes) decretaram: estes índios são uns traidores!


Marco de entrada na Baía da Traição
As confusões, no entanto, não pararam aí. Quatro grupos estariam envolvidos e o caso se deu há muito tempo. Os índios potiguaras, os comedores de camarão, habitantes originais da terra, os portugueses, os "descobridores" do Brasil, os franceses, primeiro, e, depois, os holandeses, que vieram atrás das farturas gratuitas que a terra oferecia, especialmente um tal de pau-brasil, que havia em grande abundância e não iria fazer falta, mesmo se fossem arrancados de forma predatória. Afinal de contas os europeus precisavam de muita madeira para a confecção de seus móveis coloniais. Os franceses chegaram com cara de bonzinhos (talvez trazendo queijos e vinhos) e logo começaram a falar mal dos portugueses. Incentivaram os índios a atacar nossos patrícios. Os portugueses defenderam "sua" terra com bravura. Expulsaram os franceses, mataram um grande punhado de potiguaras, fazia parte do catecismo da época, e estabeleceram a ordem (não tenho informações se isto incluía o progresso). Encantados com as mesas, cadeiras, armários, etc., que os franceses fizeram com o famoso pau, os holandeses vieram pegar a sua cota. Por um motivo inexplicável, foram bem recebidos pelos índios. Como os franceses, falaram mal dos portugueses e incentivaram os índios novamente a se rebelar. Ocorreu outra pancadaria. Os portugueses defenderam "sua" terra com bravura. Expulsaram os holandeses, mataram desta vez um punhado muito grande de potiguaras, fazia parte do catecismo da época, dominaram o lugar e estabeleceram a ordem (ainda não obtive informações se isto incluía o progresso). Por via das dúvidas, colocaram alguns canhões no alto de uma falésia. Vai que outros conterrâneos (ingleses, espanhóis e italianos) passassem também a gostar de fabricar utensílios de madeira! 





O processo de pacificação e domesticação dos índios incluía, é desnecessário dizer, um esforço da parte dos
civilizados para ajudá-los a evoluir espiritualmente. Aí entra a catequização. Transformados em novos-cristãos tiveram que chamar seus filhos e a si mesmos com nomes da língua dos religiosos colonizadores. O sobrenome mais utilizado foi Camarão, visto que poty, em tupi, significava camarão. Um dos Camarões mais famosos da nossa história foi Antônio Filipe, que lutou bravamente junto aos portugueses contra os invasores holandeses.



Hoje a aldeia dos potiguaras na Baía da Traição é fortemente cristianizada. Grupos católicos e protestantes marcam sua presença. Numa igreja dentro da aldeia propriamente dita vi uma imagem interessante. Antes será preciso uma outra consideração. Os santos trazidos e impostos pelos colonizadores brancos com frequência apiedavam-se dos colonizados aparecendo para os indígenas e oferecendo-lhes conforto e proteção. Compartilhavam, inclusive, os mesmos traços étnicos do resto da população. Isto aconteceu, por exemplo, com a Nossa Senhora de Guadalupe que em 1531 revelou-se ao índio Quauhtlatoatzin (Juan Diego) e pediu-lhe que comunicasse seu desejo que fosse construída uma igreja em sua homenagem, na cidade do México. 


Igreja da Aldeia dos Potiguaras
Voltando à Baía da Traição. Construída a pequena Igreja na aldeia surgia a questão de qual santo homenagear. A princípio seria São José, o nobre pai de Jesus. Apareceram, porém, índios vindo do México divulgando sua versão do catolicismo. A padroeira da aldeia passou a ser Nossa Senhora de Guadalupe, com seu inequívoco halo dourado. Para marcar ainda mais sua vinculação com os potiguaras, sua cabeça foi adornada com um belo cocar indígena.


Esta história me foi contada por uma índia que limpava a Igreja.

Baía da Traição é um lugar que merece ser visitado, com praias belíssimas. E acrescento, suas águas não me traíram. São quentes e acolhedoras como no resto do nordeste.



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