"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

sábado, 12 de março de 2011

2. Culto Solar

Quem percorreu as páginas de Memórias, Sonhos e Reflexões deve se lembrar do relato que Jung fez de uma de suas inúmeras viagens. Refiro-me àquela que conduziu Jung e sua trupe mambembe (segundo informações testemunhais) à Africa Negra. Ele pode testemunhar um rito onde os habitantes saudavam e ajudavam o sol. Esta era a tarefa a que eles foram incumbidos. Tarefa que, simultaneamente, pesava-lhes sobre os ombros e lhes trazia orgulho, dignidade e sentido. Agora o sol contava com a ajuda deste povo para poder funcionar e cada membro desta comunidade tinha esta tarefa grandiosa para realizar. Era ela que os ajudava a não sentirem suas vidas banais e sem sentido.

Aqui em Cabedelo, próximo a João Pessoa, pude testemunhar a existência de um "rito" semelhante. Todos os dias, ao entardecer, no Jacaré, uma praia fluvial, um saxofonista saúda o sol que se põe tocando-lhe o Bolero de Ravel. Todos os restaurantes do local, cada qual com seu grupo musical particular, silenciam suas apresentações para que todos participem deste momento: agradecer ao sol por mais um ciclo da sua e da nossa existência. O entardecer (que a Paraíba orgulhosamente anuncia ser o último lugar do Brasil a vê-lo, devido ao seu posicionamento geográfico) deixa de ser algo que acontece todos os dias, deixa de ser banalizado e explicado cientificamente como um fenômeno natural. O entardecer toma uma dimensão mítico-religiosa que não nos deixa esquecer que é ele quem garante a vida na terra e que nossas vidas individuais compartilham de seu ciclo e que é ela própria cíclica.




EEm uma espécie de inversão da antiga religião egípcia, que também cultuava o sol, mas comemorava o amanhecer, o sol renovado e renascido, aqui, na Paraíba, se homenageia o sol que se vai, em agradecimento por mais um dia que ele deu e por mais um dia que se teve. Tomara que amanhã eu consiga ouvir novamente os acordes insinuantes da bela composição.

Um comentário:

  1. Carlos, no Hatha Yoga a primeira prática é justamente a de saudação ao sol... antes de tudo um agradecimento à vida ... sermos gratos,hoje em dia, uma difícil tarefa a realizar !!

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