"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

sábado, 19 de março de 2011

7. Homem que Come Gente

Admito uma certa ambivalência em relação ao fato, visto que nosso país está infestado de mazelas: hospitais públicos depredados, estradas esburadas que matam pessoas, violência urbana e rural, corrupção desenfreada e generalizada, etc. Em suma, como disse um dos que faziam parte de seu grupo, "muita saúva e pouca saúde" são os males que assolam o país. Mas terem deixado uma das obras de arte mais representativas da nossa história e identidade cultural não se encontrar mais no país é lamentável. Estou falando do quadro Abaporu de Tarsila do Amaral, pintado em 1928. Um esforço deveria ter sido feito para manter a obra em nossos museus. Empresas e bancos (que lucram enormemente com as políticas econômicas) poderiam ter adquirido o quadro e ofertado a todos nós.


Presente de Tarsila ao seu marido Oswaldo de Andrade, o Abaporu (homem que come gente) é um marco do modernismo brasileiro e sua visão antropofágica. Valorizando as temáticas brasileiras, aproximando-nos da prática indígena (o tupy or not tupy de Oswaldo de Andrade) do banquete canibalístico, sugerindo que devemos comer a cultura estrangeira para digeri-la de forma brasileira. Como faziam os habitantes originais do Brasil.


Cenas de um banquete antropofágico retratados em
ladrilhos. Fortaleza de Santa Catarina, João Pessoa, PB

O Apaporu retrata um brasileiro típico habitante da caatinga. O sol forte e o mandacaru revelam um modo de vida difícil que exige do homem muita perseverança e trabalho, por isso a mão e o pé são retratados em primeiro plano, grandes e distantes da cabeça que, pequena e talvez resignada, descansa sobre o braço. Não vi pessoalmente nem o quadro nem a caatinga que ele retrata. Fui perambular para conhecê-la, mas a terra, umedecida pela chuva, revelou sua face verde. Os mandacarus estavam presentes, mas junto com inúmeros outros arbustos. Nas estradas, homens e mulheres de pés e mão grandes (isso eu vi) vendiam, em grande quantidade, os frutos da terra: umbu, siriguela e fruta-do-conde. Ainda bem que a natureza não obedece minha curiosidade e desejo.

Sertão da Paraíba

O Abaporu está em casa. Não definitivamente. Ele pertence a um colecionador argentino que o adquiriu por US$ 1,5 milhão. Faz parte da exposição “Mulheres Artistas e Brasileiras” que se encontra no Palácio do Planalto em Brasília.

O presidente americano teve o prazer de visitá-la em primeira mão. Será muito triste ver o quadro partir (ao lado ele sendo levado ao local da exposição, sob forte segurança). O que fazemos com nossa cultura?

Nenhum comentário:

Postar um comentário