"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

5. O Para Que de Deus

Ela me convenceu: Deus existe! Ouso acrescentar: mesmo que não seja de verdade, mas que ele existe, existe. E tem uma função especial, que é a de promover o para que. Para ela, sempre que encontramos um propósito nos acontecimentos, ouvimos, de certa maneira, a voz de Deus, principalmente naqueles acontecimentos que consideramos funestos, desagradáveis. Deus ajuda-nos a elaborar o que ocorreu, não simplesmente através da postura passiva e conformista do "assim Deus quis", mas da postura ativa e reflexiva do "o que Deus quer de mim com isso".


A quem me refiro quando digo ela? Foi um encontro fortuito. Os grandes encontros, os inesperados, aqueles que nos pegam de surpresa, devem sempre ser fortuitos. Nos planejados, naqueles que buscamos conscientemente, já temos, no mínimo, uma pré-compreensão do que poderá ocorrer. Nos fortuitos não. São as esquinas pelas quais passamos, como diz a música. Ao dobrá-las, não sei o que vou encontrar. James Hillman escreveu, certa vez, que uma cidade com alma é uma cidade que comporta e gera surpresas. Pois bem. Estava no ponto mais oriental das Américas, o lugar mais próximo da África, na cidade de João Pessoa. Fui lá para encontrar um escultor. Ele não havia chegado ainda. Fui matar o tempo (que crueldade fazemos com o tempo, principalmente, porque não sabemos quanto tempo temos para matar) numa lojinha de souvenir que existe no local. Foi ali que ocorreu o grande encontro, o meu encontro com uma velha-sábia. Não que parecesse velha, apesar dos seus 72 anos, mas a função arquetípica lhe cai muito bem. Chama-se Cida. Cearense de Fortaleza, mas agora vivendo na capital da Paraíba, em frente a Dakar, capital do Senegal. Perguntei se era ela em uma foto e isto foi o ponto de partida para uma grande lição de vida que recebi. Não sou capaz de reproduzir tudo que ela me falou, não só por causa da quantidade, mas também devido à profundidade de seu pensamento. Trabalha como conselheira matrimonial numa Igreja. Seu objetivo é passar sua experiência de um longo casamento onde pode desenvolver seu potencial de sabedoria. "Minha faculdade foi o matrimônio". Seu marido era alcóolatra, diabético e viciado em doces. Morreu por causa das complicações causadas por esta trinca. Ele levou 30 anos para deixar de beber; segundo ela, cada ferida tem um tempo certo para cicatrizar. Seu amor era uma garrafa pet de 2 litros. Cheia. O dele era um copo, também cheio. Isso é que era importante. Os dois davam o máximo de seu amor ao outro. Seu filho foi morto por bandidos em um assalto. Neste ponto é que ela introduz o tema do "para que". Para que ela tinha que passar por esta provação? Talvez para conseguir ajudar os outros a suportar o sofrimento. Ela tem razão. Nada melhor que o exemplo para ajudar as pessoas. Para que o escultor se atrasou? Para termos aquela conversa. Eu estava precisando.


Segundo ela, tudo que fazemos sempre tem uma testemunha, sempre tem um "cearense enxerido" vendo tudo e contando em casa. Testemunhas de Deus para os descaminhos do Demônio. As imagens que ela utilizava eram claras e perfeitas.


Pediu-me para escrever algo sobre este encontro em um livro de depoimentos que ela guarda. Assim que terminei de escrever, o escultor chegou. Bem mais tarde tive a oportunidade de aplicar a lição do para que reproduzindo nossa conversa. O efeito foi surpreendente.

Quem quer que vá à Paraíba, não deixe de procurá-la. Para que? Depois do encontro você vai saber. 

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