"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

16. Os dois lados da moeda

Por ironia, um dos mais irônicos escritores, teve sua principal obra ironicamente infantilizada. Isso aconteceu desde seu lançamento em 1726. Caiu no gosto da garotada que, infelizmente, não devem ter percebido o caráter eminentemente político do romance.

Outros grandes clássicos também tiveram sua força crítica reduzida. É o caso, por exemplo, de Herman Melville com seu estupendo Moby-Dick (1851). De um profundo tratado sobre a arrogância, o orgulho, a insensatez, a teimosia e a obsessão que podem dominar um ser humano ferido em sua auto-estima, o romance foi transformado em uma mera estória da fracassada perseguição de uma invencível baleia (alguns leitores vão reclamar comigo porque eu contei o final da estória). Tudo isso para agradar o gosto infanto-juvenil que supostamente não consegue navegar pelas mais de 700 páginas do romance. A triste estória do Capitão Ahab é a triste história de todos nós: somos potencialmente traidores dos princípios divinos (veja no Antigo Testamento em 1 Reis, 16: 29-34).

Voltando ao nosso autor irônico ou satírico, como preferem alguns. Trata-se de Jonathan Swift (1667-1745), o famoso escritor irlandês. O título original do romance é "Viagens para várias nações remotas do mundo, em quatro partes. Por Lemuel Gulliver, cirurgião e depois capitão de vários navios", ou seja, as Viagens de Gulliver. Como mencionei, logo após o lançamento a criançada se apoderou da estória, afinal de contas qual garoto não iria se deliciar com a cena onde o incêndio nos aposentos da Imperatriz, que ameaçava se espalhar por todo o palácio, foi apagado com uma bela, potente e certeira urinada do gigante Gulliver? Isto aconteceu na primeira viagem do nosso protagonista. Chegando exausto a uma praia, após um fatídico naufrágio, Gulliver se viu preso por inúmeros homens de tamanho diminuto comparado ao seu. Esta em Lilipute. Livre, Gulliver não só ajudava o Imperador em várias tarefas, como tinha a oportunidade de conhecer os hábitos daquele povo, sem deixar de apresentar os hábitos de sua adorável e justa terra natal, a Inglaterra. Viviam em guerra com o reino de Blefuscu, também formado por pessoas diminutas. A causa desta batalha era a forma como os dois povos partiam os ovos, se pela ponta mais fina ou se pela mais grossa. Gulliver chegou a tomar os navios de guerra de Blefuscu a pedido do Imperador de Lilipute. Seu tamanho gigantesco tornou esta tarefa fácil, mas Gulliver se recusou a destruir o reino inimigo como desejava o monarca. Este fato, aliado ao ódio da Imperatriz por causa do método empregado para apagar o incêndio, gerou uma certa desconfiança por parte de todos. Gulliver foi condenado a ter seus olhos furados sob acusação de traição, o que o faz abandonar o reino e retornar à Inglaterra.

A segunda viagem foi a Brobdingnag. Para seu espanto estava agora em uma terra de gigantes. Tudo era enorme. Gulliver não perde a chance de filosofar.

Lamentei a minha própria e néscia teimosia, tentando segunda viagem contra o conselho de todos os amigos e parentes. Nessa terrível agitação de espírito não pude menos de pensar em Lilipute, cujos habitantes me consideravam o maior dos prodígios que já tinham aparecido no mundo; onde eu era capaz de puxar com a mão uma esquadra imperial e realizar outras façanhas que serão postas para sempre em lembranças nas crônicas desse império; nas quais dificilmente crerá a posteridade, embora atestadas por milhões. Refleti na mortificação que seria para mim parecer tão insignificante neste país quanto haveria de parecer um liliputiano entre nós. Mas compreendi que este seria o menor dos meus infortúnios; pois, segundo se tem observado, sendo as criaturas humanas mais selvagens e cruéis à proporção do seu tamanho, que outra coisa poderia eu esperar senão ser um bocado na bôca do primeiro dêsses bárbaros enormes que me pegasse? Têm seguramente razão os filósofos quando afirmam que nada é grande nem pequeno senão em relação a outras coisas (Editora Abril, 1971, pág. 82).

Aqui a sátira revela toda sua dimensão política e social. Uma mesma pessoa pode se sentir, dependendo do contexto, poderosa ou insignificante. Pode devorar ou ser devorada. Gulliver ainda estabelece uma ligação entre poder e crueldade: quanto maior o primeiro, mais explícito é o segundo. Esta é a famosa lei do mais forte, ou seja, uma ausência de lei. A atitude ética, como Levinas a concebe, é justamente ser responsável pela fraqueza e fragilidade do outro. Se fizéssemos isso não haveria nem bullyings nem wellingtons.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

15. Espingarda

"Aquilo era para se pegar espingarda e caçar" (96). Esta frase é de Riobaldo, narrador-filósofo do romance Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa (Editora Nova Aguilar, 1995) Jagunço guerreiro andava pelos perigoso sertão das Gerais combatento o mal em várias manifestações: nos inimigos Hermógenes, nas elocubrações acerca da existência ou inexistência do próprio demo e na luta que travava contra o amor e o desejo que sentia por outro jagunço chamado Reinaldo. Até este sentimento, devido à sua estranheza no mundo que habitava, poderia ser obra do capeta. Só de imaginar sentia nojo, mas este não era forte o suficiente para impedir esta paixão. Se acontecesse, não teria força para repudiar.
Havia algo que antes levaria a se pegar a espingarda e caçar. O quê? E agora, o que fazer? Houve uma mudança. Não se pegaria mais em arma para se lidar com aquilo. Surgiu uma nova atitude, um novo posicionamento. Aquilo eram os pássaros. Antes, apenas objetos de mira para o grande Reinaldo Tatarana, matador de onça, de hermógenes e de pássaros. E agora? "Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação" (96). O que antes era para se ver e matar agora é para se ver é apreciar. Quem lhe ensinou isso foi o Reinaldo: "É formoso próprio", dizia. "
Riobaldo chegava a estranhar esta sensibilidade, "tudo num homem-d'armas, brabo bem jagunço — eu não entendia!". O fato, porém, é que aprendeu também a gostar. Se, no caso de Márkel foi a proximidade da morte que o levou a se desculpar com os pássaros por não lhes ter apreciado a beleza, aqui o motivo foi o amor que levou Riobaldo a compartilhar a sensibilidade de Reinaldo, na verdade Diadorim, na verdade uma mulher. "E, aí, desde aquela hora, conheci que, o Reinaldo, qualquer coisa que ele falasse, para mim virava sete vezes" (96). Salve o amor!.
De todos os pássaros o favorito era o manuelzinho-da-crôa (batuíra-de-coleira, maçarico). Por que? Andava sempre em casal, catando alimentos de um lado para o outro. "Machozinho e fêmea — às vezes davam beijos de biquinquim — a galinholagem deles" (96). Quer imagem mais eloquente para o sonho amoroso?

terça-feira, 19 de abril de 2011

14. Somos monstros, eu mais do que todos (2)

Este título baseia-se na famosa frase encontrada no romance Os Irmãos Karamázov de Dostoiévski onde lemos: "somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros" (Editora 34, p. 396). Embora este pensamento seja repetido ao longo do romance por diferentes personagens, este trecho que estou citando foi pronunciado pela personagem Márkel que nos é apresentada em três brilhantes e irônicas páginas.
Márkel era irmão do hieromonge Zossima. Filhos de pai nobre, mas de condição financeira modesta, perderam o pai quando Zossima tinha dois anos e Márkel dez. Este tinha cabeça quente, mas era bondoso. Muito calado, em casa e no colégio, morreu aos dezessete anos na época da quaresma. Não queria jejuar, debochava das práticas religiosas dizendo que era tudo maluquice e que não existia Deus nenhum. Estas frases deixavam sua mãe e os criados horrorizados e entristecidos. Estes últimos eram em número de quatro e foram comprados por um conhecido. Zossima se lembra que sua mãe vendera uma cozinheira velha e coxa e contratado os serviços de uma cozinheira livre (cuja eficiência no trabalho talvez fosse maior, observação minha).
Márkel adoeceu logo no início da quaresma. O médico constatou a gravidade da enfermidade e decretou seu falecimento para muito em breve. Ao perceber que estava morrendo sofreu uma radical transformação. Passou a jejuar. À princípio para alegrar a própria mãe. Ela ficou ao mesmo tempo alegre e preocupada, pois pensou: "quer dizer que o fim dele está próximo, se lhe vem uma mudança tão repentina" (395). Mesmo doente, porém, seu aspecto era de extrema alegria e felicidade. Agora permitia acender a lamparina diante do ícone e dirigia palavras carinhosas para a aia. Todos choravam numa mistura de estranheza e emoção.
Aos criados ele dizia: "meus queridos, meus caros, por que me servem, mereço que me sirvam?" e arrematava falando que "todos devem servir uns aos outros". Sua mãe balançava a cabeça dizendo que estes pensamentos eram por causa da doença. Reconhecendo que é impossível viver sem senhores e criados pede que possa ser criado dos criados. Neste momento é que o famoso dito é inserido: "cada um de nós é culpado por tudo perante todos, e eu mais que todos" (396). Falava isso usando palavras amáveis e inesperadas. "Meus queridos, por que brigamos, por que nos vangloriamos uns perante os outros, porque guardamos rancor uns dos outros? Vamos direto para o jardim e passeemos e brinquemos, amando e elogiando uns aos outros, e beijando, e bendizendo nossa vida". O diagnóstico do médico ao ouvir tudo isso é certeiro: está para morrer, "está passando da doença para a loucura".
O que pensar de tudo isso? Está mudança era apenas o produto do desespero de um rapaz diante da angústia da morte, talvez enlouquecido, como julgavam sua mãe e o médico; um arrependimento vazio motivado pelo medo da punição (vai que estas histórias de Deus, Diabo, Céu e Inferno sejam verdadeiras!); ou uma transformação real que surge após uma experiência emocionalmente relevante? Dostoiévski não nos dá nenhuma indicação. Mas coisas relevantes foram faladas. Devemos ouvi-las ou desqualificá-las como o produto de uma mente doente e enlouquecida diante de uma situação catastrófica? E os pronunciamentos de um louco? Devem ser todos desprezados e desvalorizados? De qualquer maneira Márkel nos pede coisas dificílimas: assumir nossa culpa, deixar de nos vangloriar, amar e elogiar os outros, pedir perdão até aos pássaros por não ter-lhes observado a beleza. Palavras de um louco ou palavras que só puderam ser expressas através da loucura? É mais seguro não ouvi-las.
Os Irmãos Karamázov é um dos romances fundamentais da história da literatura universal. Em suas quase mil páginas Dostoiévski faz desfilar perante nossos olhos quase toda gama de baixezas, veleidades, maldades, crueldades, mesquinharias, etc., que tornam todos os seres humanos desprezíveis e repugnantes. "De fato, às vezes se fala da crueldade "bestial" do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel" (329).
Dos três irmãos, filhos de mães diferentes mas de um mesmo pai desprezível, um, Aliócha, foi escolhido por Dostoiévski para ser o herói da história, pois buscava o tempo todo reparar os erros cometidos por sua família. Os outros dois, Ivan e Dmitri, ao contrário, eram protagonistas de algumas das piores ações que pessoas mais ou menos corretas podem executar. Não são bandidos, são como todos nós, mas possuem uma virtude: sabem que são desprezíveis e reconhecem a maldade que habita em nossos corações. "Acho que o diabo não existe e, portanto, o homem o criou, então o criou à sua imagem e semelhança" (330). A leitura de Dostoiévski é essencial em nosso tempo de superficialidades virtuais. Emmanuel Levinas, um dos grandes pensadores da ética, mesmo reconhecendo a condição extrema desta culpa pelo outro, a considera fundamental para o exercício de uma responsabilidade pelo outro.
No caso da chacina do Realengo considero o reconhecimento desta culpa fundamental para uma real transformação de todos nós, onde cada um buscará rever suas atitudes perante o outro. Todos os nossos valores devem ser repensados. O bullying (de bully = valentão), reconhecido como um dos grandes males da sociedade, ameaça a integridade física e psicológica de praticamente todos os alunos em várias partes do mundo. Gera traumas psíquicos e graves alterações da personalidade, mas a fonte desta prática somos todos nós. No mesmo dia o jornal Bom-dia Brasil, comentou os assassinatos cometidos por Wellington, a prática de bullying e, no final da edição, uma reportagem sobre o aumento significativo da procura de cirurgia para redução de estômago em adolescentes. A causa desta procura é a agressão verbal sofrida por elas devido ao peso aumentado. Porém, o canal de televisão que fez esta reportagem é o mesmo que exibe Zorra Total, onde rir de gordos é um dos quadros frequentes. Além, é claro, da ditadura da beleza que nos assola, onde um determinado tipo físico é elevado à categoria de padrão em detrimento de uma maior diversidade.
Portanto, além de uma reforma da escola de Realengo, novas pinturas e novas funções para as salas fatídicas, deveríamos promover diálogos onde as diferenças deveriam ser pensadas e as conclusões compartilhadas. Wellington tinha uma causa, da mesma forma que os "terroristas islâmicos" tem as deles (quer concordemos com isso ou não). Que tal ouvir o que eles tem a dizer? Talvez isso impeça toda essa matança que se espalha feito uma epidemia descontrolada por todo o mundo.

"A mim pertencem a vingança e a represália..."
Deuteronomio 32,35

sábado, 16 de abril de 2011

13. Contra Golpe

Counter Strike é apenas um dos inúmeros e famosíssimos jogos de computador cuja temática é unicamente eliminar o outro. Segundo seus fãs é pura diversão, visto que as mortes são exclusivamente virtuais.

Esta mão é você eliminando a escória da humanidade.

O perigo aparece de vários lados. Menos do nosso interior.

O Rio de Janeiro foi homenageado na diversão!

Os argumentos dos defensores do jogo são inúmeros. Cheguei a ler que o jogo aumenta o sentimento de companheirismo, visto que vários jogadores podem se unir para derrotar as forças do mal.

Ajudando companheiros maltratados pelos bandidos.





Talvez a conscientização de que você tem direito à escolha também seja um argumento a ser considerado.


O treinamento dos "guerreiros" exige provas duríssimas como, por exemplo, ser capaz de manter a concentração mesmo quando o inimigo lança seres diabólicos para te seduzir e desviar sua atenção.


O treinamento exige ser capaz de abrir mão de prazeres imediatos e "não cair em tentação".

Carl Gustav Jung, em Símbolos de Transformação, ao comentar sobre a importância da energia psíquica não ser desviada para tarefas alheias àquela que está sendo executada, cita um certo ritual indígena onde "havia um costume para os guerreiros, antes de irem para o campo de batalha, girar em torno de uma linda jovem nua que se encontrava no centro do círculo. quem quer que tivesse uma ereção era desqualificado como incapacitado para as operações militares" (par. 220). Não sei se este costume realmente existe ou existiu (Jung não citou a fonte da informação). De qualquer maneira o comentário é adequado ao nosso tema, mostrando que os guerreiros das fotos estão direcionando sua libido para a tarefa empreendida e não desviando-a para o prazer sexual. Detalhe: a luta é virtual, mas as mulheres são reais.

Counter Strike (e jogos afins) não formam gerações de criminosos e bandidos, mas achar que isto não contribui em nada para a formação de valores da personalidade é pensar de forma muito ingênua. É pura violência destiduida de qualquer sentido mais profundo. Não se pensa, se mata!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

12. E os animais?

Um trecho da carta de Wellington é, aparentemente, paradoxal e sem sentido. Prova de seu estado de loucura. Uma vez mais, uma análise mais profunda revelará outras facetas da situação. Vamos ao trecho.
"Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado à uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se sustentar, os animais não podem pedir comida ou trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, pois cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar este imóvel para o meu nome e todos sabem disso, se não cumprirem o meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não têm nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi”.
Como um assassino frio e calculista, com a nítida e premeditada intenção de matar o maior número possível de crianças e adolescentes, pode pensar no bem-estar de animais abandonados que ele nem conhece? Isso me faz lembrar de algumas coisas. A primeira é o Rock da Cachorra de Eduardo Duzek, que de maneira jocosa e irônica, na melhor tradição de Jonathan Swift, autor de As Viagens de Gulliver (não confundir com a idiotice hollywoodiana de mesmo nome que foi exibida recentemente nos cinemas), chama a atenção para problemas muito sérios. Diz a letra:

Troque seu cachorro
Por uma criança pobre
(Baptuba! Uap Baptuba!
Sem parente, sem carinho
Sem rango, sem cobre
(Baptuba! Uap Baptuba!)
Deixe na história de sua vida
Uma notícia nobre...
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
Por uma criança pobre...
Tem muita gente por aí
Que tá querendo levar
Uma vida de cão
Eu conheço um garotinho
Que queria ter nascido
Pastor-alemão
Esse é o rock despedida
Prá minha cachorrinha
Chamada "sua-mãe"...
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
Esse é o rock despedida
Prá cachorra "Sua-mãe"...
Seja mais humano
Seja menos canino
Dê guarita pro cachorro
Mas também dê pro menino
Se não um dia desse você
Vai amanhecer latindo
Uau! Uau! Uau!...

Com este rock Duzek está nos lembrando que Wellington não está sozinho em sua capacidade de se compadecer dos animais mais do que pelos seres humanos. Muita gente de bem faz o mesmo. Em seu caso, fragilizado psicologicamente, e, como indicam seus escritos, humilhado e desprezado pelos colegas, sua repulsa pelos humanos tem explicação. Nossa experiência com animais é diferente. Os cachorros sacodem o rabo para ricos e pobres, belos e feios, sábios e ignorantes. Não se importam com a aparência exterior. Os mais agressivos são imitadores de seus donos. O encantador de cães, série que pode ser vista no canal Animal Planet, tem um pit-bull que é muitíssimo mais manso do que eu. Isto conduz a minha segunda lembrança, diz respeito a um conto moral pertencente à tradição muçulmana (agradeço a Philip Bandeira de Melo ter-me apresentado, em eras passadas, mas ainda nesta encarnação, este belo livro). Encontra-se na compilação feita por Idries Shah intitulada Histórias dos Dervixes, religiosos da tradição Sufista que fazem votos de pobreza e praticam boas ações. A estória em questão chama-se "O cachorro, o bordão e o Sufi" que vou reproduzi-lo aqui (acho que o livro está esgotado; vale a pena procurá-lo em sebos; foi publicado pela Editora Nova Fronteira).
"Um homem vestido como um sufi caminhava certo dia pela estrada quando viu um cachorro à beira do caminho, ao qual golpeou duramente com seu bordão. O cachorro, ganindo de dor, correu à procura do grande sábio Abu-Said. Arrojando-se a seus pés e mostrando sua pata ferida, clamou por justiça conta o sufi que o maltratara tão cruelmente.
O sábio chamou a vítima e o acusado. Fitando o sufi, ele disse:
— Ó insensato! Como é possível tratar assim um pobre animal? Veja bem o que lhe fez!
— A culpa não me cabe, e sim ao cão. Não lhe bati por mero capricho, mas sim por ter sujado meu manto.
Mas o cachorro persistia em sua queixa.
Então o venerável sábio disse ao cachorro:
— Em vez de aguardar a Recompensa Final, permita que lhe dê uma compensação pela sua dor.
Ao que o cachorro retrucou:
— Grande e sábia criatura, quando vi este homem ataviado como um sufi, pude deduzir que não me faria mal algum. Em troca, se eu tivesse visto um homem vestido de maneira comum, naturalmente que me afastaria dele. Meu verdadeiro erro foi supor que a aparência exterior de um homem devotado à verdade representava segurança. Se deseja que ele seja castigado, despoje-o da vestimenta dos Eleitos. Retire-lhe os paramentos dos servos da Virtude...
O cachorro estava num certo Degrau do Caminho para a verdade. É um erro crer que um homem deve ser melhor do que aparenta."
O cachorro aprendeu, na base do porrete, a não confundir exterior com interior, embora a gente faça isso o tempo todo. Outros cachorros, num Degrau mais elevado do Caminho para a Verdade, não cometem este erro. Agora minha última lembrança.

Tive a sorte, em meu processo de formação, de ter trabalhado e aprendido com a Drª Nise da Silveira, a famosa psiquiatra que buscou humanizar o tratamento dos doentes mentais. Seu principal método (a ser ensinado, pois perdemos a capacidade de fazer isso espontaneamente) era chamado de "afeto catalisador", ou seja, dar carinho e atenção para ajudar os pacientes a saírem de sua "célula de sobrevivência". O medo do outro é muito forte, por isso se isolam e criam uma realidade substituta. O afeto catalisa o potencial de todos de sair deste abrigo interno e se voltar para o mundo externo da realidade e dos relacionamentos. A função do terapeuta é facilitar esta passagem. A Drª Nise, porém, vai mais longe. Vamos às suas palavras, tão sábias quanto aquelas do mestre Sufi.
"Excelentes catalisadores são os co-terapeutas não humanos.

Desde a adoção da pequena cadela Caralâmpia (1955) por um doente que frequentava uma de nossas oficinas, verifiquei as vantagens da presença de animais no hospital psiquiátrico. Sobretudo o cão reúne qualidades que o fazem muito apto a tornar-se um ponto de referência estável no mundo externo. Nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto sem nada pedir em troca, traz calor e alegria ao frio ambiente hospitalar. Os gatos têm um modo de amar diferente. Discretos, esquivos, talvez sejam muito afins com os esquizofrênicos na sua maneira peculiar de querer bem" (Nise da Silveira, Imagens do Inconsciente, Editorial Alhambra, pág. 81).
Com dificuldades de viver sua faceta humana, cometendo gestos desumanos, Wellington certamente se identificou com os seres não-humanos, projetando suas partes abandonadas e fragmentadas nos vira-latas da vida. Apesar de toda a revolta gerada pelos seus atos, sua casa foi apedrejada e pichada, acredito que seu desejo merece ser realizado. Que o lugar onde viveu seja um lar de redenção e abrigo para tudo aquilo que foi e é desprezado.

11. Somos monstros, eu mais do que todos.

Inegavelmente o último evento perturbador que acompanhamos em todos os noticiários cria muita revolta. Refletir sobre ele é nossa obrigação, mas devemos reconhecer igualmente onde cada um de nós contribuiu para esta tragédia e interromper um ímpeto de caça às bruxas que se espalha em todas as direções. Até o famoso fogo purificador, utilizado com frequência nas punições da inquisição, está sendo convocado: estão ameaçando incendiar a casa do assim chamado Monstro de Realengo, o Monstro da Desordem (um dos significados de realengo). Fica fácil constatar que uma retórica religiosa está se insinuando em toda está discussão, tanto por parte das "vítimas" quanto da parte do "culpado". Obviamente outras retóricas estão presentes. Quero, aqui, acrescentar um "s" multiplicador na última palavra que eu cautelosamente coloquei entre aspas. Não há somente um culpado. Em primeiro lugar, foram só (até agora) doze mortos. Não escrevo isso a partir da frieza estatística dos números. Escrevo isso me compadecendo da dor dos que tiveram seus filhos mortos neste evento. Tenho uma filha e só de pensar que poderia (e pode) ter acontecido com ela me causa calafrios. Mas a quantidade de mortes que nosso estilo de sociedade engendra no dia-a-dia é muitíssimo maior. Sem dúvida as circunstâncias nos fazem classificar o evento como traumático. Aqui está um dos problemas que eu quero levantar. Parece que as outras formas que a morte escolhe para nos atingir não estão nos traumatizando mais. Já fazem parte do "mundo é assim!". Estão, igualmente, falando muito dos transtornos mentais. O número de pessoas mortas por "doentes mentais", clinicamente identificados e rotulados, ao longo de toda a história da humanidade, é ínfimo comparado aos que perderam a vida nas mãos de indivíduos considerados normais. A não ser que alargássemos de tal maneira o conceito de loucura que estaríamos refundando a famosa Casa Verde do não menos famoso Dr. Simão Bacamarte, alienista criado por Machado de Assis. Neste caso qualquer gesto considerado diferente seria classificado como produto da loucura. Este massacre ou esta chacina de Realengo é, reconheço, diferente para nossos padrões. Isto é coisa de americano. Estamos acostumados a outros massacres e outras chacinas que ouvimos jantando na voz do locutor da vez do Jornal Nacional e rapidamente substituídas pelos gols da rodada. Como você vai comprar as coisas anunciadas se ficar triste? Somos ou não somos monstros? Aliás, uma correção. Foram treze os mortos. Wellington também faleceu. Voltando. Somos ou não somos monstros? Praticamos várias formas de bullying. Algumas tão inocentes que nem percebemos seu potencial agressivo e ofensivo. Rimos de pessoas feias, esquisitas, gordas, burras. Tudo isso na maioria dos programas de humor da nossa televisão. Os negros foram retirados deste grupo, agora dá cadeia, mas todos os outros acima mencionados, com o acréscimo dos homossexuais, são vítimas do nosso riso. Condenamos as agressões cometidas contra os homossexuais em São Paulo, mas rimos de todos eles. Eles nos divertem. São alegres! Cultivamos padrões rígidos de beleza ditatorialmente impostos sobre todos, com seus produtos mágicos dizendo que o que alguns são não deveriam ser. Se são, azar, te vira. "Tá com pena? Leva, é tua!", já dizia um velho bordão humorístico. Alguns não tiveram a sorte ou o dinheiro (que muitas vezes torna isto tudo sem importância) de nascer belos, normais, ricos, sarados, inteligentes (e brancos, acrescentaria um membro do nosso ilustre corpo político). Pelos fragmentos de sua história, entreouvidos aqui e acolá, nossa vítima-ativa, Wellington, seria um desses azarados. Rejeitado pelas garotas tomou, talvez, um caminho estranho. Poderia ter atravessado outros. Ter assumido sua feiúra e buscado alguém que visse nele outras expressões de beleza. Ter assumido sua feiúra e se isolado, por exemplo. Um caminho percorrido por muitos, inclusive pelo ilustre Fernando Pessoa, que se achava tão feio que chegou a duvidar se seria capaz ou mesmo merecedor de ser poeta. Poderia, também, ter escolhido um caminho explicitamente religioso, onde a pureza sexual, tema de sua carta de despedida, é recompensada com beatitudes celestiais. Ou mesmo, re-introduzindo o assunto loucura, seguido os conselhos de marcianos a abandonar o desejo pelas terráqueas em troca de sua re-encarnação em Júpiter, planeta com uma vida muito superior a da Terra (não duvido!). Prova que os delírios, mesmo os mais loucos, não conduz necessariamente uma pessoa ao crime. Wellington infelizmente não escolheu nenhuma destas opções. Identificando-se com outros desprezados famosos, percorreu a avenida da vingança. Modelos são facilmente encontrados nos meios de comunicação. Os primeiros a serem lembrados são os jovens que mataram colegas em várias escolas americanas. Disseram também que Wellington ficara impressionado com os ataques às Torres Gêmeas. Quem não ficou? Este fato foi apressadamente interpretado como se ele fosse um admirador dos grupos islâmicos fundamentalistas, que recebem a culpa de todas as calamidades políticas que assolam nosso mundo (como desconhecemos a história que não nos interessa!). Alá seja louvado! Graças a Deus em sua carta Wellington mencionou Jesus! De caráter individual ou político, com motivação religiosa delirante ou não, estamos diante de manifestações de pessoas (ou povos) oprimidos e que utilizam-se das armas oferecidas pelos opressores. A Folha de São Paulo de ontem (domingo, dia 10 de abril de 2011) destaca a seguinte notícia: "Polícia prende dupla que vendeu revolver a atirador e tenta traçar caminho da arma". A dúvida está no trajeto que levou o 32 das mãos de seu comprador original e legítimo, pois registrou a arma oficialmente. Mas ela foi roubada por alguém que passou a não sei quantos outros "alguéns" e acabou chegando num tal de Robson, que não se sabe se está ainda vivo ou morto, que vendeu a arma para o tal monstro, intermediada por um chaveiro e um vigia desempregado. Na tentativa de ajudar a polícia, reconhecendo meu total despreparo nessas questões, a elucidar este hiato (que leva do comprador oficial ao Robson), devo expressar minha opinião que tudo isso é a instituição de um bode-expiatório. Estamos diante, novamente, de uma retórica religiosa, desta vez bem antiga. Não importa de quem veio a arma. Se não viesse de um viria de outro, pois não deve ser difícil comprar uma arma. A questão principal é sobre seu papel em nossa sociedade. Por que elas são fabricadas e por que elas são compradas? Por que nos armamos? Que "r" é esse que se entremeou numa palavra que seria de grande utilidade para o bem da humanidade? E os carregadores? Talvez a maior invenção depois da invenção da própria arma. Seu sugestivo nome de "speedloader" já denuncia sua função: carregar as seis balas do tambor da arma de uma só vez. Quem foi que o inventou? Um bandido ou louco sanguinário? Um fanático religioso querendo purificar a Terra dos inimigos da fé? Que nada. Foi um inventor estudioso e habilidoso formado em alguma grande universidade. Tem família, paga seus impostos e gosta de levar seus filhos à Disneylândia. Exemplos de usos destes armamentos não precisam vir nem de loucos nem de fundamentalismos de qualquer espécie. Diariamente elas se mostram nos entretenimentos da vida cotidiana. Quase uma extensão da nossa mão. Tudo é resolvido através da pura e simples eliminação do outro. Desde os filmes de bang-bang, onde uma desavença com troca de tiros é algo tão comum quanto o cocô que os cavalos de mocinhos e bandidos espalham, até a tsunami de filmes e séries policiais que nos inundam, a arma empunhada é presença obrigatória. É tão divertido e óbvio que inventaram jogos de computador, vídeo-games, onde eliminamos inimigos ao bel-prazer. Ganhamos pontos com isso. Onde Wellington aprendeu a atirar? Não sei se em outros lugares, mas o counter-strike está aí para suprir esta lacuna. Joguinho de diversão. Só não é mais realista que matar "ao vivo" (me desculpem pelo trocadilho). Passar de um para outro é um pulo. Este e outros jogos semelhantes que fazem parte da indústria do entretenimento são um sucesso planetário. Existem até campeonatos mundiais para ver quem mata mais 'inimigos'. Tentativas de proibi-lo foram feitas em 2008. Em fevereiro do mesmo ano houve, inclusive, uma pequena manifestação em São Paulo contra a proibição. No portal G1 ainda podemos ler a opinião de alguns defensores do jogo. Nas palavras de Sérgio Amadeu, sociólogo e professor de comunicação: “Essa decisão é muito perigosa porque é baseada no preconceito. Não existe nenhuma relação entre games e violência. Essa decisão deve motivar o protesto não só dos jogadores de videogame, mas de todos que defendem a liberdade de expressão no país”. Acrescenta que os locais onde se concentram mais jogadores possuem baixos índices de violência. Não sei da veracidade desta afirmação, mas estudos deveriam ser realizados sobre os efeitos destes jogos na construção da visão de mundo de seus aficionados. A proibição de sua venda foi suspensa. Realmente ela era ridícula, pois o jogo poderia ser baixado ou jogado on line. Nem estou afirmando que o jogo cria ou criará hordas de jovens violentos. Graças a Deus (Alá, Jesus, Javé, Buda, Tupã, Oxalá, Krishna, etc.) isso não acontece. O que fica claro é a cultura de extrema violência que legamos aos nossos filhos, onde matar o outro, mesmo virtualmente, é o grande objetivo. Neste caldeirão repleto de ódio um ingrediente a mais ou a menos pode gerar outros Wellingtons. Aprendemos a debochar dos outros, não a respeitá-los. Na minha opinião, o próprio ensino contribui para isso. Concordo inteiramente com Paulo Freire quando ele critica o ensino cumulativo. As crianças e adolescentes saem cheios de informações que nada contribuem para a formação de seu caráter, pois muitas vezes são estudos tecnológicos que passam muito longe de sua realidade. Minha implicância principal é com a profundidade com que as matérias científicas (física e química) e matemática são ensinadas. Qual é o objetivo de se ensinar logaritmo aos adolescentes? Nenhum. Só encher a cabeça deles de preocupações e fazê-los perder tempo precioso que poderia ser utilizado em discussões sobre a vida em sociedade, em conhecer as diferentes culturas, em aprender a respeitar as diferentes religiões, em aceitar a multiplicidade de escolhas que temos à nossa disposição. O que vocês acham, professores, que na onda desta comoção, todos se debruçassem sobre o quadro Guernica de Picasso onde está retratado os efeitos da intolerância. Quanto ao logaritmo, deixem para a faculdade daqueles que querem ser engenheiros. A intolerância é nosso urgente tema de estudos.


Acima a imagem de Guernica de Picasso. Sugiro também a comparação com a Guernica de Quino, cartunista argentino, mais conhecido como o criador da Mafalda (insisto, mais uma vez, nada de logaritmo).