"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

11. Somos monstros, eu mais do que todos.

Inegavelmente o último evento perturbador que acompanhamos em todos os noticiários cria muita revolta. Refletir sobre ele é nossa obrigação, mas devemos reconhecer igualmente onde cada um de nós contribuiu para esta tragédia e interromper um ímpeto de caça às bruxas que se espalha em todas as direções. Até o famoso fogo purificador, utilizado com frequência nas punições da inquisição, está sendo convocado: estão ameaçando incendiar a casa do assim chamado Monstro de Realengo, o Monstro da Desordem (um dos significados de realengo). Fica fácil constatar que uma retórica religiosa está se insinuando em toda está discussão, tanto por parte das "vítimas" quanto da parte do "culpado". Obviamente outras retóricas estão presentes. Quero, aqui, acrescentar um "s" multiplicador na última palavra que eu cautelosamente coloquei entre aspas. Não há somente um culpado. Em primeiro lugar, foram só (até agora) doze mortos. Não escrevo isso a partir da frieza estatística dos números. Escrevo isso me compadecendo da dor dos que tiveram seus filhos mortos neste evento. Tenho uma filha e só de pensar que poderia (e pode) ter acontecido com ela me causa calafrios. Mas a quantidade de mortes que nosso estilo de sociedade engendra no dia-a-dia é muitíssimo maior. Sem dúvida as circunstâncias nos fazem classificar o evento como traumático. Aqui está um dos problemas que eu quero levantar. Parece que as outras formas que a morte escolhe para nos atingir não estão nos traumatizando mais. Já fazem parte do "mundo é assim!". Estão, igualmente, falando muito dos transtornos mentais. O número de pessoas mortas por "doentes mentais", clinicamente identificados e rotulados, ao longo de toda a história da humanidade, é ínfimo comparado aos que perderam a vida nas mãos de indivíduos considerados normais. A não ser que alargássemos de tal maneira o conceito de loucura que estaríamos refundando a famosa Casa Verde do não menos famoso Dr. Simão Bacamarte, alienista criado por Machado de Assis. Neste caso qualquer gesto considerado diferente seria classificado como produto da loucura. Este massacre ou esta chacina de Realengo é, reconheço, diferente para nossos padrões. Isto é coisa de americano. Estamos acostumados a outros massacres e outras chacinas que ouvimos jantando na voz do locutor da vez do Jornal Nacional e rapidamente substituídas pelos gols da rodada. Como você vai comprar as coisas anunciadas se ficar triste? Somos ou não somos monstros? Aliás, uma correção. Foram treze os mortos. Wellington também faleceu. Voltando. Somos ou não somos monstros? Praticamos várias formas de bullying. Algumas tão inocentes que nem percebemos seu potencial agressivo e ofensivo. Rimos de pessoas feias, esquisitas, gordas, burras. Tudo isso na maioria dos programas de humor da nossa televisão. Os negros foram retirados deste grupo, agora dá cadeia, mas todos os outros acima mencionados, com o acréscimo dos homossexuais, são vítimas do nosso riso. Condenamos as agressões cometidas contra os homossexuais em São Paulo, mas rimos de todos eles. Eles nos divertem. São alegres! Cultivamos padrões rígidos de beleza ditatorialmente impostos sobre todos, com seus produtos mágicos dizendo que o que alguns são não deveriam ser. Se são, azar, te vira. "Tá com pena? Leva, é tua!", já dizia um velho bordão humorístico. Alguns não tiveram a sorte ou o dinheiro (que muitas vezes torna isto tudo sem importância) de nascer belos, normais, ricos, sarados, inteligentes (e brancos, acrescentaria um membro do nosso ilustre corpo político). Pelos fragmentos de sua história, entreouvidos aqui e acolá, nossa vítima-ativa, Wellington, seria um desses azarados. Rejeitado pelas garotas tomou, talvez, um caminho estranho. Poderia ter atravessado outros. Ter assumido sua feiúra e buscado alguém que visse nele outras expressões de beleza. Ter assumido sua feiúra e se isolado, por exemplo. Um caminho percorrido por muitos, inclusive pelo ilustre Fernando Pessoa, que se achava tão feio que chegou a duvidar se seria capaz ou mesmo merecedor de ser poeta. Poderia, também, ter escolhido um caminho explicitamente religioso, onde a pureza sexual, tema de sua carta de despedida, é recompensada com beatitudes celestiais. Ou mesmo, re-introduzindo o assunto loucura, seguido os conselhos de marcianos a abandonar o desejo pelas terráqueas em troca de sua re-encarnação em Júpiter, planeta com uma vida muito superior a da Terra (não duvido!). Prova que os delírios, mesmo os mais loucos, não conduz necessariamente uma pessoa ao crime. Wellington infelizmente não escolheu nenhuma destas opções. Identificando-se com outros desprezados famosos, percorreu a avenida da vingança. Modelos são facilmente encontrados nos meios de comunicação. Os primeiros a serem lembrados são os jovens que mataram colegas em várias escolas americanas. Disseram também que Wellington ficara impressionado com os ataques às Torres Gêmeas. Quem não ficou? Este fato foi apressadamente interpretado como se ele fosse um admirador dos grupos islâmicos fundamentalistas, que recebem a culpa de todas as calamidades políticas que assolam nosso mundo (como desconhecemos a história que não nos interessa!). Alá seja louvado! Graças a Deus em sua carta Wellington mencionou Jesus! De caráter individual ou político, com motivação religiosa delirante ou não, estamos diante de manifestações de pessoas (ou povos) oprimidos e que utilizam-se das armas oferecidas pelos opressores. A Folha de São Paulo de ontem (domingo, dia 10 de abril de 2011) destaca a seguinte notícia: "Polícia prende dupla que vendeu revolver a atirador e tenta traçar caminho da arma". A dúvida está no trajeto que levou o 32 das mãos de seu comprador original e legítimo, pois registrou a arma oficialmente. Mas ela foi roubada por alguém que passou a não sei quantos outros "alguéns" e acabou chegando num tal de Robson, que não se sabe se está ainda vivo ou morto, que vendeu a arma para o tal monstro, intermediada por um chaveiro e um vigia desempregado. Na tentativa de ajudar a polícia, reconhecendo meu total despreparo nessas questões, a elucidar este hiato (que leva do comprador oficial ao Robson), devo expressar minha opinião que tudo isso é a instituição de um bode-expiatório. Estamos diante, novamente, de uma retórica religiosa, desta vez bem antiga. Não importa de quem veio a arma. Se não viesse de um viria de outro, pois não deve ser difícil comprar uma arma. A questão principal é sobre seu papel em nossa sociedade. Por que elas são fabricadas e por que elas são compradas? Por que nos armamos? Que "r" é esse que se entremeou numa palavra que seria de grande utilidade para o bem da humanidade? E os carregadores? Talvez a maior invenção depois da invenção da própria arma. Seu sugestivo nome de "speedloader" já denuncia sua função: carregar as seis balas do tambor da arma de uma só vez. Quem foi que o inventou? Um bandido ou louco sanguinário? Um fanático religioso querendo purificar a Terra dos inimigos da fé? Que nada. Foi um inventor estudioso e habilidoso formado em alguma grande universidade. Tem família, paga seus impostos e gosta de levar seus filhos à Disneylândia. Exemplos de usos destes armamentos não precisam vir nem de loucos nem de fundamentalismos de qualquer espécie. Diariamente elas se mostram nos entretenimentos da vida cotidiana. Quase uma extensão da nossa mão. Tudo é resolvido através da pura e simples eliminação do outro. Desde os filmes de bang-bang, onde uma desavença com troca de tiros é algo tão comum quanto o cocô que os cavalos de mocinhos e bandidos espalham, até a tsunami de filmes e séries policiais que nos inundam, a arma empunhada é presença obrigatória. É tão divertido e óbvio que inventaram jogos de computador, vídeo-games, onde eliminamos inimigos ao bel-prazer. Ganhamos pontos com isso. Onde Wellington aprendeu a atirar? Não sei se em outros lugares, mas o counter-strike está aí para suprir esta lacuna. Joguinho de diversão. Só não é mais realista que matar "ao vivo" (me desculpem pelo trocadilho). Passar de um para outro é um pulo. Este e outros jogos semelhantes que fazem parte da indústria do entretenimento são um sucesso planetário. Existem até campeonatos mundiais para ver quem mata mais 'inimigos'. Tentativas de proibi-lo foram feitas em 2008. Em fevereiro do mesmo ano houve, inclusive, uma pequena manifestação em São Paulo contra a proibição. No portal G1 ainda podemos ler a opinião de alguns defensores do jogo. Nas palavras de Sérgio Amadeu, sociólogo e professor de comunicação: “Essa decisão é muito perigosa porque é baseada no preconceito. Não existe nenhuma relação entre games e violência. Essa decisão deve motivar o protesto não só dos jogadores de videogame, mas de todos que defendem a liberdade de expressão no país”. Acrescenta que os locais onde se concentram mais jogadores possuem baixos índices de violência. Não sei da veracidade desta afirmação, mas estudos deveriam ser realizados sobre os efeitos destes jogos na construção da visão de mundo de seus aficionados. A proibição de sua venda foi suspensa. Realmente ela era ridícula, pois o jogo poderia ser baixado ou jogado on line. Nem estou afirmando que o jogo cria ou criará hordas de jovens violentos. Graças a Deus (Alá, Jesus, Javé, Buda, Tupã, Oxalá, Krishna, etc.) isso não acontece. O que fica claro é a cultura de extrema violência que legamos aos nossos filhos, onde matar o outro, mesmo virtualmente, é o grande objetivo. Neste caldeirão repleto de ódio um ingrediente a mais ou a menos pode gerar outros Wellingtons. Aprendemos a debochar dos outros, não a respeitá-los. Na minha opinião, o próprio ensino contribui para isso. Concordo inteiramente com Paulo Freire quando ele critica o ensino cumulativo. As crianças e adolescentes saem cheios de informações que nada contribuem para a formação de seu caráter, pois muitas vezes são estudos tecnológicos que passam muito longe de sua realidade. Minha implicância principal é com a profundidade com que as matérias científicas (física e química) e matemática são ensinadas. Qual é o objetivo de se ensinar logaritmo aos adolescentes? Nenhum. Só encher a cabeça deles de preocupações e fazê-los perder tempo precioso que poderia ser utilizado em discussões sobre a vida em sociedade, em conhecer as diferentes culturas, em aprender a respeitar as diferentes religiões, em aceitar a multiplicidade de escolhas que temos à nossa disposição. O que vocês acham, professores, que na onda desta comoção, todos se debruçassem sobre o quadro Guernica de Picasso onde está retratado os efeitos da intolerância. Quanto ao logaritmo, deixem para a faculdade daqueles que querem ser engenheiros. A intolerância é nosso urgente tema de estudos.


Acima a imagem de Guernica de Picasso. Sugiro também a comparação com a Guernica de Quino, cartunista argentino, mais conhecido como o criador da Mafalda (insisto, mais uma vez, nada de logaritmo).

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