"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

12. E os animais?

Um trecho da carta de Wellington é, aparentemente, paradoxal e sem sentido. Prova de seu estado de loucura. Uma vez mais, uma análise mais profunda revelará outras facetas da situação. Vamos ao trecho.
"Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado à uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se sustentar, os animais não podem pedir comida ou trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, pois cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar este imóvel para o meu nome e todos sabem disso, se não cumprirem o meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não têm nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi”.
Como um assassino frio e calculista, com a nítida e premeditada intenção de matar o maior número possível de crianças e adolescentes, pode pensar no bem-estar de animais abandonados que ele nem conhece? Isso me faz lembrar de algumas coisas. A primeira é o Rock da Cachorra de Eduardo Duzek, que de maneira jocosa e irônica, na melhor tradição de Jonathan Swift, autor de As Viagens de Gulliver (não confundir com a idiotice hollywoodiana de mesmo nome que foi exibida recentemente nos cinemas), chama a atenção para problemas muito sérios. Diz a letra:

Troque seu cachorro
Por uma criança pobre
(Baptuba! Uap Baptuba!
Sem parente, sem carinho
Sem rango, sem cobre
(Baptuba! Uap Baptuba!)
Deixe na história de sua vida
Uma notícia nobre...
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
(Uauuu!)
Troque seu cachorro
Por uma criança pobre...
Tem muita gente por aí
Que tá querendo levar
Uma vida de cão
Eu conheço um garotinho
Que queria ter nascido
Pastor-alemão
Esse é o rock despedida
Prá minha cachorrinha
Chamada "sua-mãe"...
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
(É prá Sua-mãe!)
É prá Sua-mãe!
Esse é o rock despedida
Prá cachorra "Sua-mãe"...
Seja mais humano
Seja menos canino
Dê guarita pro cachorro
Mas também dê pro menino
Se não um dia desse você
Vai amanhecer latindo
Uau! Uau! Uau!...

Com este rock Duzek está nos lembrando que Wellington não está sozinho em sua capacidade de se compadecer dos animais mais do que pelos seres humanos. Muita gente de bem faz o mesmo. Em seu caso, fragilizado psicologicamente, e, como indicam seus escritos, humilhado e desprezado pelos colegas, sua repulsa pelos humanos tem explicação. Nossa experiência com animais é diferente. Os cachorros sacodem o rabo para ricos e pobres, belos e feios, sábios e ignorantes. Não se importam com a aparência exterior. Os mais agressivos são imitadores de seus donos. O encantador de cães, série que pode ser vista no canal Animal Planet, tem um pit-bull que é muitíssimo mais manso do que eu. Isto conduz a minha segunda lembrança, diz respeito a um conto moral pertencente à tradição muçulmana (agradeço a Philip Bandeira de Melo ter-me apresentado, em eras passadas, mas ainda nesta encarnação, este belo livro). Encontra-se na compilação feita por Idries Shah intitulada Histórias dos Dervixes, religiosos da tradição Sufista que fazem votos de pobreza e praticam boas ações. A estória em questão chama-se "O cachorro, o bordão e o Sufi" que vou reproduzi-lo aqui (acho que o livro está esgotado; vale a pena procurá-lo em sebos; foi publicado pela Editora Nova Fronteira).
"Um homem vestido como um sufi caminhava certo dia pela estrada quando viu um cachorro à beira do caminho, ao qual golpeou duramente com seu bordão. O cachorro, ganindo de dor, correu à procura do grande sábio Abu-Said. Arrojando-se a seus pés e mostrando sua pata ferida, clamou por justiça conta o sufi que o maltratara tão cruelmente.
O sábio chamou a vítima e o acusado. Fitando o sufi, ele disse:
— Ó insensato! Como é possível tratar assim um pobre animal? Veja bem o que lhe fez!
— A culpa não me cabe, e sim ao cão. Não lhe bati por mero capricho, mas sim por ter sujado meu manto.
Mas o cachorro persistia em sua queixa.
Então o venerável sábio disse ao cachorro:
— Em vez de aguardar a Recompensa Final, permita que lhe dê uma compensação pela sua dor.
Ao que o cachorro retrucou:
— Grande e sábia criatura, quando vi este homem ataviado como um sufi, pude deduzir que não me faria mal algum. Em troca, se eu tivesse visto um homem vestido de maneira comum, naturalmente que me afastaria dele. Meu verdadeiro erro foi supor que a aparência exterior de um homem devotado à verdade representava segurança. Se deseja que ele seja castigado, despoje-o da vestimenta dos Eleitos. Retire-lhe os paramentos dos servos da Virtude...
O cachorro estava num certo Degrau do Caminho para a verdade. É um erro crer que um homem deve ser melhor do que aparenta."
O cachorro aprendeu, na base do porrete, a não confundir exterior com interior, embora a gente faça isso o tempo todo. Outros cachorros, num Degrau mais elevado do Caminho para a Verdade, não cometem este erro. Agora minha última lembrança.

Tive a sorte, em meu processo de formação, de ter trabalhado e aprendido com a Drª Nise da Silveira, a famosa psiquiatra que buscou humanizar o tratamento dos doentes mentais. Seu principal método (a ser ensinado, pois perdemos a capacidade de fazer isso espontaneamente) era chamado de "afeto catalisador", ou seja, dar carinho e atenção para ajudar os pacientes a saírem de sua "célula de sobrevivência". O medo do outro é muito forte, por isso se isolam e criam uma realidade substituta. O afeto catalisa o potencial de todos de sair deste abrigo interno e se voltar para o mundo externo da realidade e dos relacionamentos. A função do terapeuta é facilitar esta passagem. A Drª Nise, porém, vai mais longe. Vamos às suas palavras, tão sábias quanto aquelas do mestre Sufi.
"Excelentes catalisadores são os co-terapeutas não humanos.

Desde a adoção da pequena cadela Caralâmpia (1955) por um doente que frequentava uma de nossas oficinas, verifiquei as vantagens da presença de animais no hospital psiquiátrico. Sobretudo o cão reúne qualidades que o fazem muito apto a tornar-se um ponto de referência estável no mundo externo. Nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto sem nada pedir em troca, traz calor e alegria ao frio ambiente hospitalar. Os gatos têm um modo de amar diferente. Discretos, esquivos, talvez sejam muito afins com os esquizofrênicos na sua maneira peculiar de querer bem" (Nise da Silveira, Imagens do Inconsciente, Editorial Alhambra, pág. 81).
Com dificuldades de viver sua faceta humana, cometendo gestos desumanos, Wellington certamente se identificou com os seres não-humanos, projetando suas partes abandonadas e fragmentadas nos vira-latas da vida. Apesar de toda a revolta gerada pelos seus atos, sua casa foi apedrejada e pichada, acredito que seu desejo merece ser realizado. Que o lugar onde viveu seja um lar de redenção e abrigo para tudo aquilo que foi e é desprezado.

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