"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

14. Somos monstros, eu mais do que todos (2)

Este título baseia-se na famosa frase encontrada no romance Os Irmãos Karamázov de Dostoiévski onde lemos: "somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros" (Editora 34, p. 396). Embora este pensamento seja repetido ao longo do romance por diferentes personagens, este trecho que estou citando foi pronunciado pela personagem Márkel que nos é apresentada em três brilhantes e irônicas páginas.
Márkel era irmão do hieromonge Zossima. Filhos de pai nobre, mas de condição financeira modesta, perderam o pai quando Zossima tinha dois anos e Márkel dez. Este tinha cabeça quente, mas era bondoso. Muito calado, em casa e no colégio, morreu aos dezessete anos na época da quaresma. Não queria jejuar, debochava das práticas religiosas dizendo que era tudo maluquice e que não existia Deus nenhum. Estas frases deixavam sua mãe e os criados horrorizados e entristecidos. Estes últimos eram em número de quatro e foram comprados por um conhecido. Zossima se lembra que sua mãe vendera uma cozinheira velha e coxa e contratado os serviços de uma cozinheira livre (cuja eficiência no trabalho talvez fosse maior, observação minha).
Márkel adoeceu logo no início da quaresma. O médico constatou a gravidade da enfermidade e decretou seu falecimento para muito em breve. Ao perceber que estava morrendo sofreu uma radical transformação. Passou a jejuar. À princípio para alegrar a própria mãe. Ela ficou ao mesmo tempo alegre e preocupada, pois pensou: "quer dizer que o fim dele está próximo, se lhe vem uma mudança tão repentina" (395). Mesmo doente, porém, seu aspecto era de extrema alegria e felicidade. Agora permitia acender a lamparina diante do ícone e dirigia palavras carinhosas para a aia. Todos choravam numa mistura de estranheza e emoção.
Aos criados ele dizia: "meus queridos, meus caros, por que me servem, mereço que me sirvam?" e arrematava falando que "todos devem servir uns aos outros". Sua mãe balançava a cabeça dizendo que estes pensamentos eram por causa da doença. Reconhecendo que é impossível viver sem senhores e criados pede que possa ser criado dos criados. Neste momento é que o famoso dito é inserido: "cada um de nós é culpado por tudo perante todos, e eu mais que todos" (396). Falava isso usando palavras amáveis e inesperadas. "Meus queridos, por que brigamos, por que nos vangloriamos uns perante os outros, porque guardamos rancor uns dos outros? Vamos direto para o jardim e passeemos e brinquemos, amando e elogiando uns aos outros, e beijando, e bendizendo nossa vida". O diagnóstico do médico ao ouvir tudo isso é certeiro: está para morrer, "está passando da doença para a loucura".
O que pensar de tudo isso? Está mudança era apenas o produto do desespero de um rapaz diante da angústia da morte, talvez enlouquecido, como julgavam sua mãe e o médico; um arrependimento vazio motivado pelo medo da punição (vai que estas histórias de Deus, Diabo, Céu e Inferno sejam verdadeiras!); ou uma transformação real que surge após uma experiência emocionalmente relevante? Dostoiévski não nos dá nenhuma indicação. Mas coisas relevantes foram faladas. Devemos ouvi-las ou desqualificá-las como o produto de uma mente doente e enlouquecida diante de uma situação catastrófica? E os pronunciamentos de um louco? Devem ser todos desprezados e desvalorizados? De qualquer maneira Márkel nos pede coisas dificílimas: assumir nossa culpa, deixar de nos vangloriar, amar e elogiar os outros, pedir perdão até aos pássaros por não ter-lhes observado a beleza. Palavras de um louco ou palavras que só puderam ser expressas através da loucura? É mais seguro não ouvi-las.
Os Irmãos Karamázov é um dos romances fundamentais da história da literatura universal. Em suas quase mil páginas Dostoiévski faz desfilar perante nossos olhos quase toda gama de baixezas, veleidades, maldades, crueldades, mesquinharias, etc., que tornam todos os seres humanos desprezíveis e repugnantes. "De fato, às vezes se fala da crueldade "bestial" do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel" (329).
Dos três irmãos, filhos de mães diferentes mas de um mesmo pai desprezível, um, Aliócha, foi escolhido por Dostoiévski para ser o herói da história, pois buscava o tempo todo reparar os erros cometidos por sua família. Os outros dois, Ivan e Dmitri, ao contrário, eram protagonistas de algumas das piores ações que pessoas mais ou menos corretas podem executar. Não são bandidos, são como todos nós, mas possuem uma virtude: sabem que são desprezíveis e reconhecem a maldade que habita em nossos corações. "Acho que o diabo não existe e, portanto, o homem o criou, então o criou à sua imagem e semelhança" (330). A leitura de Dostoiévski é essencial em nosso tempo de superficialidades virtuais. Emmanuel Levinas, um dos grandes pensadores da ética, mesmo reconhecendo a condição extrema desta culpa pelo outro, a considera fundamental para o exercício de uma responsabilidade pelo outro.
No caso da chacina do Realengo considero o reconhecimento desta culpa fundamental para uma real transformação de todos nós, onde cada um buscará rever suas atitudes perante o outro. Todos os nossos valores devem ser repensados. O bullying (de bully = valentão), reconhecido como um dos grandes males da sociedade, ameaça a integridade física e psicológica de praticamente todos os alunos em várias partes do mundo. Gera traumas psíquicos e graves alterações da personalidade, mas a fonte desta prática somos todos nós. No mesmo dia o jornal Bom-dia Brasil, comentou os assassinatos cometidos por Wellington, a prática de bullying e, no final da edição, uma reportagem sobre o aumento significativo da procura de cirurgia para redução de estômago em adolescentes. A causa desta procura é a agressão verbal sofrida por elas devido ao peso aumentado. Porém, o canal de televisão que fez esta reportagem é o mesmo que exibe Zorra Total, onde rir de gordos é um dos quadros frequentes. Além, é claro, da ditadura da beleza que nos assola, onde um determinado tipo físico é elevado à categoria de padrão em detrimento de uma maior diversidade.
Portanto, além de uma reforma da escola de Realengo, novas pinturas e novas funções para as salas fatídicas, deveríamos promover diálogos onde as diferenças deveriam ser pensadas e as conclusões compartilhadas. Wellington tinha uma causa, da mesma forma que os "terroristas islâmicos" tem as deles (quer concordemos com isso ou não). Que tal ouvir o que eles tem a dizer? Talvez isso impeça toda essa matança que se espalha feito uma epidemia descontrolada por todo o mundo.

"A mim pertencem a vingança e a represália..."
Deuteronomio 32,35

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