"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

15. Espingarda

"Aquilo era para se pegar espingarda e caçar" (96). Esta frase é de Riobaldo, narrador-filósofo do romance Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa (Editora Nova Aguilar, 1995) Jagunço guerreiro andava pelos perigoso sertão das Gerais combatento o mal em várias manifestações: nos inimigos Hermógenes, nas elocubrações acerca da existência ou inexistência do próprio demo e na luta que travava contra o amor e o desejo que sentia por outro jagunço chamado Reinaldo. Até este sentimento, devido à sua estranheza no mundo que habitava, poderia ser obra do capeta. Só de imaginar sentia nojo, mas este não era forte o suficiente para impedir esta paixão. Se acontecesse, não teria força para repudiar.
Havia algo que antes levaria a se pegar a espingarda e caçar. O quê? E agora, o que fazer? Houve uma mudança. Não se pegaria mais em arma para se lidar com aquilo. Surgiu uma nova atitude, um novo posicionamento. Aquilo eram os pássaros. Antes, apenas objetos de mira para o grande Reinaldo Tatarana, matador de onça, de hermógenes e de pássaros. E agora? "Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação" (96). O que antes era para se ver e matar agora é para se ver é apreciar. Quem lhe ensinou isso foi o Reinaldo: "É formoso próprio", dizia. "
Riobaldo chegava a estranhar esta sensibilidade, "tudo num homem-d'armas, brabo bem jagunço — eu não entendia!". O fato, porém, é que aprendeu também a gostar. Se, no caso de Márkel foi a proximidade da morte que o levou a se desculpar com os pássaros por não lhes ter apreciado a beleza, aqui o motivo foi o amor que levou Riobaldo a compartilhar a sensibilidade de Reinaldo, na verdade Diadorim, na verdade uma mulher. "E, aí, desde aquela hora, conheci que, o Reinaldo, qualquer coisa que ele falasse, para mim virava sete vezes" (96). Salve o amor!.
De todos os pássaros o favorito era o manuelzinho-da-crôa (batuíra-de-coleira, maçarico). Por que? Andava sempre em casal, catando alimentos de um lado para o outro. "Machozinho e fêmea — às vezes davam beijos de biquinquim — a galinholagem deles" (96). Quer imagem mais eloquente para o sonho amoroso?

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