"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

16. Os dois lados da moeda

Por ironia, um dos mais irônicos escritores, teve sua principal obra ironicamente infantilizada. Isso aconteceu desde seu lançamento em 1726. Caiu no gosto da garotada que, infelizmente, não devem ter percebido o caráter eminentemente político do romance.

Outros grandes clássicos também tiveram sua força crítica reduzida. É o caso, por exemplo, de Herman Melville com seu estupendo Moby-Dick (1851). De um profundo tratado sobre a arrogância, o orgulho, a insensatez, a teimosia e a obsessão que podem dominar um ser humano ferido em sua auto-estima, o romance foi transformado em uma mera estória da fracassada perseguição de uma invencível baleia (alguns leitores vão reclamar comigo porque eu contei o final da estória). Tudo isso para agradar o gosto infanto-juvenil que supostamente não consegue navegar pelas mais de 700 páginas do romance. A triste estória do Capitão Ahab é a triste história de todos nós: somos potencialmente traidores dos princípios divinos (veja no Antigo Testamento em 1 Reis, 16: 29-34).

Voltando ao nosso autor irônico ou satírico, como preferem alguns. Trata-se de Jonathan Swift (1667-1745), o famoso escritor irlandês. O título original do romance é "Viagens para várias nações remotas do mundo, em quatro partes. Por Lemuel Gulliver, cirurgião e depois capitão de vários navios", ou seja, as Viagens de Gulliver. Como mencionei, logo após o lançamento a criançada se apoderou da estória, afinal de contas qual garoto não iria se deliciar com a cena onde o incêndio nos aposentos da Imperatriz, que ameaçava se espalhar por todo o palácio, foi apagado com uma bela, potente e certeira urinada do gigante Gulliver? Isto aconteceu na primeira viagem do nosso protagonista. Chegando exausto a uma praia, após um fatídico naufrágio, Gulliver se viu preso por inúmeros homens de tamanho diminuto comparado ao seu. Esta em Lilipute. Livre, Gulliver não só ajudava o Imperador em várias tarefas, como tinha a oportunidade de conhecer os hábitos daquele povo, sem deixar de apresentar os hábitos de sua adorável e justa terra natal, a Inglaterra. Viviam em guerra com o reino de Blefuscu, também formado por pessoas diminutas. A causa desta batalha era a forma como os dois povos partiam os ovos, se pela ponta mais fina ou se pela mais grossa. Gulliver chegou a tomar os navios de guerra de Blefuscu a pedido do Imperador de Lilipute. Seu tamanho gigantesco tornou esta tarefa fácil, mas Gulliver se recusou a destruir o reino inimigo como desejava o monarca. Este fato, aliado ao ódio da Imperatriz por causa do método empregado para apagar o incêndio, gerou uma certa desconfiança por parte de todos. Gulliver foi condenado a ter seus olhos furados sob acusação de traição, o que o faz abandonar o reino e retornar à Inglaterra.

A segunda viagem foi a Brobdingnag. Para seu espanto estava agora em uma terra de gigantes. Tudo era enorme. Gulliver não perde a chance de filosofar.

Lamentei a minha própria e néscia teimosia, tentando segunda viagem contra o conselho de todos os amigos e parentes. Nessa terrível agitação de espírito não pude menos de pensar em Lilipute, cujos habitantes me consideravam o maior dos prodígios que já tinham aparecido no mundo; onde eu era capaz de puxar com a mão uma esquadra imperial e realizar outras façanhas que serão postas para sempre em lembranças nas crônicas desse império; nas quais dificilmente crerá a posteridade, embora atestadas por milhões. Refleti na mortificação que seria para mim parecer tão insignificante neste país quanto haveria de parecer um liliputiano entre nós. Mas compreendi que este seria o menor dos meus infortúnios; pois, segundo se tem observado, sendo as criaturas humanas mais selvagens e cruéis à proporção do seu tamanho, que outra coisa poderia eu esperar senão ser um bocado na bôca do primeiro dêsses bárbaros enormes que me pegasse? Têm seguramente razão os filósofos quando afirmam que nada é grande nem pequeno senão em relação a outras coisas (Editora Abril, 1971, pág. 82).

Aqui a sátira revela toda sua dimensão política e social. Uma mesma pessoa pode se sentir, dependendo do contexto, poderosa ou insignificante. Pode devorar ou ser devorada. Gulliver ainda estabelece uma ligação entre poder e crueldade: quanto maior o primeiro, mais explícito é o segundo. Esta é a famosa lei do mais forte, ou seja, uma ausência de lei. A atitude ética, como Levinas a concebe, é justamente ser responsável pela fraqueza e fragilidade do outro. Se fizéssemos isso não haveria nem bullyings nem wellingtons.

Um comentário:

  1. Essa falta de controle faz parte do humano. Humano demasiado humano... São os deuses operando silenciosamente. Daí a ter um controle ético...Será que não é deixar de dar oportunidades de desenvolvimentos?...

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