"O homem tem necessidade de uma vida simbólica". Com esta frase Jung quer chamar a atenção sobre a banalidade de nossas vidas. Em grande medida perdemos os rituais e as práticas cotidianas que importam para a alma. Mesmo pertencer a uma Igreja ou fazer parte de algum culto não garante esta tão necessária vida simbólica. Podemos participar de tudo de forma superficial, repetitiva, automática, até mesmo egoísta e consumista. Religião de supermercado e shopping. Fast-food ingerido rapidamente e com sabores realçados artificialmente. "Somente uma vida simbólica pode expressar as necessidades da alma". Um dos caminhos para se readquirir este estilo de viver é olhando para os símbolos produzidos pelo inconsciente, imagens que brotam do nosso interior e que nos desafiam. Para alguns vale a lei do decifra-me ou te devoro; em outros impera o desejo amoroso da troca e fertilização mútuas. Os símbolos, porém, também aparecem fora, no cotidiano. Falando melhor, podemos olhar o cotidiano simbolicamente, transformando-o em fonte de reflexões e transformações. Jung menciona a existência de cantos nas casas onde se vivia a vida simbólica, como as casas indianas que abrigam, por detrás das cortina, a imagem de alguma divindade que será contactada através de alguma oferanda em algum instante do dia. Este blog é meu canto virtual onde buscarei compartilhar meu olhar simbólico pelo mundo.

domingo, 9 de setembro de 2012

17. É possível alguma restauração na "restauração"? (I)

Para que possamos nos aproximar novamente da psicologia da patologia, apresento o termo patologizar como a habilidade autônoma da psique para criar doença, morbidade, desordem, anormalidade, e sofrimento em qualquer aspecto de seu comportamento e de experimentar e imaginar a vida através desta perspectiva deformada e aflita. 
 James Hillman, Re-vendo a Psicologia
O fato me tirou do longo silêncio que atribuí a este blog de reflexões, pois mexeu com minha imaginação e me fez desejar tecer uma longa cadeia de pensamentos a partir da perspectiva do patologizar proposta por Hillman. O feito fez sucesso mundial. Muitos adoraram e outros tantos detestaram. Trata-se da "restauração" de uma imagem de Cristo, intitulada Ecce Homo (Eis o Homem), que se encontra no santuário de Nuestra Señora de La Misericordia em Borja na Espanha. O afresco foi pintado por Elías Garcia Martínez, em agradecimento à Virgem da Misericórdia. O afresco retrata o rosto de Jesus com sua coroa de espinhos e expressão sofredora. Segundo as próprias autoridades locais, a obra não possui qualquer valor. Nada de novo foi acrescentado. Ali vemos as feições que tradicionalmente são atribuídas a Jesus. Desgastada pelo tempo, a pintura necessitava de um trabalho de restauração. É aqui que a história começa a ficar interessante.  




Com o intuito de restaurar a obra do pintor espanhol do século XIX, uma idosa de 81 anos chamada Cecilia Giménez, uma pintora amadora habitante da localidade, resolveu realizar o trabalho. A "restauração" foi concluída e o resultado tomou proporções mundiais. Segundo Manuel Gracia Rivas, presidente do Centro de Estudos Borjanos, o blog da instituição já recebeu milhares de acessos vindo de todos os lugares (http://noticias.universia.com.br/atualidade/noticia/2012/08/22/960673/idosa-destruiu-obra-arte-queria-terminar-trabalho-pintor-espanhol.html). Nunca a própria cidade recebeu tanta publicidade e o número de visitantes do santuário aumentou consideravelmente, todos interessados em ver pessoalmente o "novo" rosto de Cristo. O sucesso da pintura "original" diante de sua "releitura" é insignificante.     [edit]

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